08/11/12

Fragmentos de 2012/10/19


Somewhere Beneath the Wide Sky (1954) de Masaki Kobayashi: ****
Mesmo sabendo nós, agora com mais substância, que a primeira meia-dúzia de filmes de Kobayashi são mais Kinoshita do que outra coisa, esse mesmo facto não deve retrair a apreciação quando se trata de um filme bem pensado e bem executado como este. Os motivos do típico filme Shochiku estão, então, bem presentes: a dificuldade das relações familiares misturada com o quotidiano cheio de solavancos. A juntar a isto, um grande cast (Hideko Takamine, Keiji Sada, Yoshiko Kuga, etc.).



Yellow Crow (1957) de Heinosuke Gosho: ***
Gosho traduz aqui um olhar esperançoso, apesar de uma componente dramática omnipresente e de alguns laivos pessimistas, da paternidade e da infância, filmando a condição da criança como susceptível de ser melhor compreendida pelos adultos e pais do pós-guerra. A esta dimensão quase social, junta-se uma componente mais íntima que relembra Naruse quanto à descrição dos ângulos imperfeitos de quem concentra em si o poder: a mãe, demasiado submissa quando o pai aparece (mas que ainda assim, tem uma relação profunda com o filho), e um pai exercendo uma autoridade por vezes cega e castradora, sem compreender os seus próprios motivos.



Isshin Tasuke - A World in Danger (1958) de Tadashi Sawashima: ***
Tadashi Sawashima, um dos mais desprezados artesãos da Toei, pega no ídolo Kinnosuke Nakamura (interpretando aqui dois papéis, o príncipe e o pobre) e filma um colorido exercício de estilo, cheio de alegria e força.



Snow Flurry (1959) de Keisuke Kinoshita: ****
Uma torrente de imagens invade a retina do espectador, a sua intensidade e o modo como estão apresentadas (cores bucólicas com grandiosos travelings) poderia sugerir uma dispersão narrativa qualquer, mas a engenhosa montagem faz que a componente dramática dos personagens seja um vai-vem circular (por isso se repetem os mesmos planos e se efectuam movimentos ora retro-activos, ora pro-activos na diegese), a essência, afinal, de todo o sofrimento. Talvez o mais interessante desta pequena jóia de Kinoshita é o facto de o mais importante - o que sai do círculo do sofrimento e da desilusão - é o que está em aberto e permanece radicalmente indeterminado. A mãe pergunta: "Isto não é um bom presságio de um novo começo?" E é aí que o filme termina, deixando talvez os momentos mais luminosos na imaginação de quem assiste.



Chikamatsu's Love in Osaka (1959) de Tomu Uchida: *****
Surpreendente obra-prima de Uchida que aborda de um ângulo fascinante tanto a temática do amor fatal como todo o universo de Monzaemon Chikamatsu, o maior dramaturgo clássico de teatro bunraku. O desenvolvimento narrativo tem-se como uma esgrima silenciosa entre os intervenientes trágicos do amor (os representantes de um mundo cuja realidade se encontra numa transgressão à beira do sonho e da morte) e o ponto-de-vista aparentemente passivo do artista - Chikamatsu, ele próprio - que os observa para os transformar num ideal de beleza inatingível e nobre (contrária, portanto, à dureza áspera do real: dinheiro, trabalho, regras sociais estanques, etc.) É, por isso mesmo, um filme que testemunha de maneira perfeita - correlacionada e solidamente dialogada - como os rios díspares, violentos e passionais da vida podem vir desaguar num mar criador - ainda algo sofrido por se relacionar minimamente com o real - que irá, enfim, desaguar num oceano pacífico, que esconde correntes instáveis e que é representado pelo produto final, a obra derradeira que nasce desse sopro vital. Bravo!



A Woman's Place (1962) de Mikio Naruse: ***
Fecha-se assim o ciclo de 69 filmes narusianos disponíveis. Como dizia Catherine Russel no seu estudo "Woman and Japanese Modernity", esta trilogia tardia de contos sobre mulheres (nas quais se podem contar ainda, As a Wife as a Woman e A Woman's Story) foi largamente críticada por ser uma versão simplificada da estética pessimista de Naruse. A película pertence a uma moda de declínio por parte dos estúdios que faziam grandes filmes de família com um cast à medida dessas propostas. Mesmo não sendo das melhores coisas que fez, podemos ver aqui um ensaio em ponto pequeno (embora haja tantas personagens!) do que seriam duas das suas obras melhores do anos 60, Yearning e Scatered Clouds.



Yakuza Soldier - Rebel in the Army (1972) de Yasuzo Masumura: **
Este é o nono filme de uma saga começada com o já visionado Hoodlum Soldier, tanto este último capítulo como o primeiro têm a mão de Yasuzo Masumura, mas os outros sete tinham ficado ao encargo dos outros "artesãos" da Daiei até à sua falência. Não se estranhe, por isso mesmo, o facto de ter sido a Toei a produzir este filme e a Katsu Productions a co-produzi-lo, a primeira ficara com o papel de produzir obras dos mestres dissidentes do estúdio (Kenji Misumi, a saga Zatoichi etc). Há aqui, portanto, uma sensação diametral de fim de era quanto ao género e uma certa estética que cai em redundâncias várias e uma sensação de já visto permanece incontornável. Por outro lado, se Shintaru Katsu assume sempre um destaque que se justifica com a sua presença, a narrativa é um tanto escassa e não consegue fazer brilhar a anarquia de Hoodlum Soldier, por exemplo (ou dos filmes de balbúrdia bélica que são os filmes de Kihachi Okamoto). Percebe-se em parte porque é que, ainda no mesmo ano, Masumura se viraria para a produção independente lançando-nos essa afronta (no bom sentido) que é Music. Decerto, a fórmula Daiei estava aqui a dar as últimas...



The Young Rebels (1980) de Keisuke Kinoshita: *
Infelizmente não passa de um conjunto de pedaços pretensamente documentados sobre criminalidade juvenil, as suas origens e a consequente indagação de responsabilidades. A componente fragmentária (não só narrativa, mas também cinematográfica: constantemente se salta de um registo para o outro) torna a experiência completamente díspar e incoerente, perfilando inúmeras personagens que só estão na acção para desempenhar uma função muito específica, quase sempre negativa, susceptível de reprovação e castigo pelo espectador, e que, por essa mesma razão, raramente são dignas de uma genuína afectação. Por isso não é nada estranho que mais de dois terços do filme seja perpassado por um sentimento algo hipócrita porque a sua moral tem qualquer coisa de auto-fágico.



Koroshi (2000) de Masahiro Kobayashi: **
Um filme que parte dos mesmos pressupostos narrativos das produções iniciais de Kobayashi. História estranha, melancómica (perdoe-se o neologismo) de hit-man's com vários piscar de olhos reflexivos a uma certa cultura cinéfila que ao espectador normal pode parecer um pouco pretensiosa e deslocada. No caso, o tom começa por ser mais sarcástico, gozando-se com a necessidade (pronta a transcender qualquer normalidade) de trabalhar e ocupar uma existência destructurada e entendiante com um ofício no mínimo caricato. Valha-nos Ryo Ishibashi nos momentos mais inspirados, mas continua a ser uma proposta um tanto ou quanto desiquilibrada.



Postcard (2010) de Kaneto Shindo: **
Não é de longe dos momentos mais inspirados de Shindo (mas realizar aos 98 anos não deve ter sido certamente fácil), no entanto acaba por ser uma visão bastante teatralizada de um tributo a uma geração (da qual Shindo podia ser visto como um dos últimos representantes) que sofreu na pele a morte ideológica de que proveio. É também tocante por ainda estar tão próxima a morte de um dos definitivos mestres e por, ainda que aparentemente se pense o contrário, haver aqui uma prova de uma energia louvável e um amor pelas capacidades narrativas do cinema.



Robo-G (2012) de Shinobu Yaguchi: **
Um razoável regresso de Yaguchi às comédias simpáticas. Executa-se aqui o usual filme cuja narrativa gira em torno de uma fraude, e por isso, a maior parte dos momentos são de uma construção sucessiva de embaraços, porque, justamente, o espectador sabe mais do que os personagens que são enganados, quando estão a enganar. Na verdade, o facto de um dos protagonistas da fraude ser um velho reformado (grande Mickey Curtis!) dá um sabor mais doce e amargo a toda a empreitada, já que é no meio da sua solidão e imcompreensão que nasce a malfeitoria.

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