02/11/12

Fragmentos de 2011/07/09


Singing Loverbirds (1939) de Masahiro Makino: *
Subscrevo: os musicais costumam ser responsáveis pelas figuras mais caricatas no cinema, pois enchem-se de um irrealismo tão delinquentemente alegre que o próprio espectador não entende, por um lado, a razão de tanto espalhafato, e esse mesmo facto fá-lo odiar, nem que seja por instantes, o amor. Para além disto, a narrativa é inexistente e a dualidade atroz dos sinónimos (pobreza é bondade, riqueza, maldade) faz tudo o mais parecer coisa histórica, sem grande cabimento a não ser o da curiosidade ingénua.



Minamata: The Victims and Their World (1971) de Noriaki Tsuchimoto: *****
Depois da experiência Ogawa, eis que surgiu o verdadeiro pináculo do cinema documental japonês. Propondo-se tratar a vida atormentada dos pobres camponeses e pescadores - que foram infectados crónicamente, ao longo de dezassete anos, por desperdícios tóxicos de uma fábrica ao longo da zona costeira de Minamata -, Tsuchimoto vai-nos lentamente engolindo no quotidiano inexorável de dezenas desses pacientes. A sua câmara vai desvendando o mundo aterrorizador daqueles que, ainda humanos, já não são considerados como tais. As suas histórias, os seus sofrimentos calados acabam por deixar o espectador estarrecido, para no final do filme, toda essa angústia ser projectada de maneira mais do que explosiva numa reunião violenta e melancólica entre os doentes revoltados e os donos da fábrica responsável pela tragédia.



Wet Weekend (1979) de Kichitaro Negishi: **
Um roman-porno com algum toque sombrio e dormente à la fim dos anos 70, mas que permanece ainda por terrenos demasiado básicos e simplistas, especialmente em termos narrativos.



Don't Look Back (1999) de Akihiko Shiota: ***
Engraçada esta incursão pelo mundo juvenil - como é apanágio dos primeiros filmes do Shiota. Certos planos e estilística (também o humor) fizeram-me lembrar certas coisas prematuras do Kiyoshi Kurosawa. Mesmo assim - e dentro do género - prefiro, por exemplo, o seu filme de 2001, Harmful Insect.



After the Rain (1999) de Takashi Koizumi: **
Após quatro anos com o filme na lista de espera, finalmente vi After the Rain, a primeira obra do assistente de realização de Akira Kurosawa, Takashi Koizumi. Se alguns momentos são interessantes, relembrando os samurais gentis e pacíficos da trilogia de Yoji Yamada, o facto de patrocinarem e aludirem à obra de Kurosawa torna a experiência frustrada, pois a simplicidade do filme não o deixa ir muito longe, acabando tudo por cheirar a filme televisivo, tematica e esteticamente, sem grande apetência para uma transfiguração da imagem (como era apanágio do seu mestre).



Blue (2001) de Hiroshi Ando: **
Um bocado frouxo (péssima gravação de som, principalmente), Blue é a típica narrativa coming of age. Do que sabemos sobre o cinema japonês nesta matéria, já vimos melhor, mais capaz e mais maduro.



Letter from the Mountain (2002) de Takashi Koizumi: *
Segundo filme de Koizumi e ao tratamento superficial imagético, junta-se neste caso uma quantidade de lugares-comuns sobre "japonesismo", que mais não são do que uma visão utópica, preguiçosa, simplificada e mesmo confusa até para um espectador japonês. Memorando: o cinema não pode ser um folheto zen panfletário.



The Professor and His Beloved Equation (2006) de Takashi Koizumi: ***
O que realmente faz a diferença nesta elegia ao estilo de um Madadayo! é o rico e inteligente argumento, que faz uma simbiose bastante sensível entre a beleza da matemática e a singularidade de cada ser e de como essa singularidade é infinita, misteriosa e sagrada. Apesar da realização ser - mais uma vez - simplificada ao máximo, de facto o argumento e a prestação de Akira Terao (muito mais subtil do que nos dois filmes passados ao comando de Koizumi) são bastante satisfatórias.



Confessions of a Dog (2006) de Gen Takahashi: ****
Uma intrincada narrativa - que pouco fôlego perde nas suas mais de três horas - sobre a corrupção policial e o carácter irremediável dessa própria corrupção. Embora comece de maneira um pouco demorada e sem grandes pretensões, aos poucos Gen Takahashi sublinha as relações de poder e influência estabelecidas num regime de injustiças sucessivas. Se claramente a polícia está acima da lei - e é monstruosa, justamente, porque é hipócrita - também os jornalistas são "os cães" amestrados que são alimentados pelo próprio sistema corrupto. De sublinhar a genial interpretação de Shun Sugata e aquele momento derradeiro em que se sublinha uma componente muito mais teatral e mais passional do protagonista. Essa é, sem dúvida, a maneira ideal de acabar um filme como este, contrastando o pathos final do protagonista e do espectador com um estilo predominantemente sóbrio e quase documental.



The Youth of Kamiya Etsuko (2006) de Kazuo Kuroki: **
Este foi o último trabalho de Kuroki e, à semelhança do seu anterior filme, The Face of Jizo, aqui também se reflecte e repensa a vida durante a 2ª Guerra Mundial e como ela marcou toda uma geração. No que diz respeito à mise-en-scène os planos demasiado longos acabam por reduzir o fôlego e ficamos com a sensação de que o que estamos a ver é mais teatro filmado, do que cinema propriamente dito.



Best Wishes for Tomorrow (2007) de Takashi Koizumi: 0
Que dizer sobre esta estupada? Primeiro: realização preguiçosa, ou seja, um filme quase exclusivamente passado num tribunal deve ser dinâmico e deve contar também com uma tensão narrativa, pelo contrário, aqui Koizumi repete planos e sequências demonstrando uma falta de visão avassaladora. Segundo: embora o assunto até pudesse ser interessante, a experiência é bocejante, os personagens reduzem-se a uma palavra e, mesmo carregando nos violinos e no piano, nada consegue arrancar o mínimo de preocupação ou assentimento pelo que se está a passar. Terceiro: o facto de se defender um criminoso de guerra humanisticamente (como Kurosawa fazia para os que realmente mereciam!), sem desenvolver ambos os lados suficientemente, mas simplesmente reforçando a honra, o carácter e o exemplo moral do acusado, representa apenas facilitismo na escrita e na concepção cinematográfica. Alguém dizia que os filmes sobre a Guerra são sempre os mais desonestos, mas aqui Koizumi com a sua ideologia inocente e romântica, certamente agradará aos japoneses da velha guarda ou às donas de casa sexagenárias que choram por tudo e por nada.




Villain (2010) de Lee Sang-Il: ***
Este thriller um tanto previsível não deixa de compensar e de se afirmar no modo como é filmado. Para mim, é um claro exemplo de um filme cuja realização, aliada às boas interpretações, consegue superar aquilo que pareceria ser um razoável argumento.

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