03/11/12

Fragmentos de 2011/11/20


Souls on the Road (1921) de Minoru Murata: **
Este filme mudo de Murata foi importante para o cinema japonês por razões históricas, mas tirando esses contornos de genealogista, perpassa por todo o filme um sentimento de pré-história cinematográfica, mesmo sabendo que - tal como na arte da fotografia - o seu início e advento não significa necessariamente precariedade nas técnicas e nos meios de contar uma narrativa.



Golgo 13 (1973) de Jun'ya Sato: 0
Esta primeira adaptação imagem real do famoso assassino Golgo 13 (a segunda seria protagonizada por Sonny Chiba, e que embora insuficiente, é melhor do que esta) tem a mesma irritante estrutura de filme de importação que Jun'ya Sato com grande espírito corporativista repetia ano após ano na Toei. Seguem-se alguns pontos negativos: um Ken Takakura frouxo e descaracterizado com o seu ar sempre impenetrável (quando Golgo deveria ter menos bushido e mais intuição de manhoso) adicionado a bocejantes sequências de acção mal coreografada e - pior do que tudo o mais - a estrageirada dobrada por actores japoneses que dá um ar simplesmente barato e apressado a algo que pretendia ser uma super-produção entre dois países.



Outlaw Cop (1976) de Yusuke Watanabe: ****
Este one-shot de Yusuke Watanabe é um bom retrato da sobriedade de um cinema de meados dos anos 70 que consegue equilibrar rasgos de violência contida com os ares sorumbáticos e melancólicos de um Yoshio Harada totalmente inclassificável, aqui interpretando um ex-polícia totalmente obcecado por apanhar um ex-convicto. De notar o extraordinário despojamento aquando da sua captura como um quebrar de lugares-comuns nas entrelinhas, mesmo sendo um filme de género, com as suas particularidades repetíveis. Isso e mais uns freeze-frames bélicos (fiquei com aquele freeze-frame que introduz o título na cabeça!) elevam este Outlaw Cop para os melhores e mais intensos lugares.



Utamaro's World (1977) de Akio Jissoji: *****
Embora seja um retrato bastante diferente, mesmo historicamente inverosímil, daquilo que os escassos dados históricos nos revelam sobre Utamaro, esta versão de Jissoji mostra-nos um personagem abstracto, dividido entre uma obsessão pela pintura, e uma entrega aos prazeres da carne, que ele próprio considera como efémeros e transientes. Noutros filmes, como por exemplo Edo Porn de Kaneto Shindo ou até mesmo a versão Mizoguchiana, Utamaro and his Five Women demonstravam-se os acessos de sofrimento, ou de êxtase dos pintores, ou de quem os acompanhava de perto. Aqui, Jissoji prefere desvendar primeiro o mundo em torno de Utamaro, e para isso, tinha de filmar Edo no final do Século XVIII com uma radicalidade que lhe é característica, para, assim depois, poder delinear os contornos do coração do artista. Tudo está no mesmo plano: a arte e a sexualidade, o teatro e a ladroagem, a riqueza e a pobreza. Jissoji poder-se-á até ter esticado em demasia, por filmar tanto erotismo e com contornos tão perversos, mas Utamaro é visto aqui como esse artista que descobre que a vida "é um sonho dentro de um sonho", isto é, que da vida, da carne concreta, não se pode confiar muito. As próprias pinturas são vistas assim como uma entrega ao nada primordial de onde se veio. A obsessão de Utamaro é assim, a obsessão de toda a (sua) arte (não esqueçamos que Ukiyo-e quer dizer pinturas do mundo flutuante): visionar a vida a partir dos antípodas, vê-la através do sonho que faz tudo tornar efémero, pois tudo pertence ao movimento. Nada, em cada momento, permanece igual. Akio Jissoji filma como a besta cinematográfica que é. Certos momentos são agonizantes, outros são de um êxtase absoluto. Embora seja marca de realizador, a própria filmagem dá-nos tematicamente a procura angustiosa do pintor embriagado pelo devir.



Flesh Target Rape! (1979) de Yukihiro Sawada: 0
É preciso ser bem mais inteligente para se ser provocador. E se neste roman-porno mais tardio (influenciado por uma moda, introduzida particularmente por Yasuharu Hasebe, a saber, a moda da violação) a vida do homem comum assalariado passa por uma revolução, que não é mais do que uma revolta sexual, todos esses esquemas parecem sempre pretextos um quanto vazios para se encher um filme com uma hora e dez minutos de misoginia e supremacia masculina, quando nem há, por parte do espectador, nem por parte do realizador grandes identificações, nem narrativa sequer. Apenas uma quantidade cansativa e interminável de sexo imposto, que vai-se a ver, ainda se torna desejado...



Bicycle Sighs (1991) de Sion Sono: *
Sono aqui ainda era um tímido realizador (não a caricatura de provocador, que mais tarde se tornou) que tentava aliar confissões privadas com uma simbologia algo velada, mas um pouco mais comunicável. Esta história dos desencontros afectivos de três personagens remete ela própria para uma certa nostalgia com cinema amador à mistura. Mas, apesar de uns momentos mais surreais, nem a carga emotiva é grande, nem ela é profunda para ser silenciosa, e por isso a cena final não tem o impacto que se desejaria.



War and Youth (1991) de Tadashi Imai: ***
É conhecida a asserção de que os realizadores da geração de 40 foram sempre assombrados pelo fantasma da 2ª Guerra Mundial, uns mais cedo na sua carreira (Kobayashi, Okamoto, Ichikawa, Shindo), uns mais tarde (Kinoshita, Kurosawa) mas houve sempre aqueles que desde sempre foram críticos ávidos dos infortúnios da virtude e do espírito japonês, cuja consequência mais flagrante foi o desfecho da guerra em 45. Tadashi Imai - juntamente com Yasuzo Masumura ou Satsuo Yamamoto - foi um deles: dos seus filmes disponíveis (e oxalá venham mais!) há sempre um sentido crítico, virado para as experiências de uma classe explorada que por tradição histórica e arcaica se mantém presa num atavismo perturbador. Com alguma curiosidade, este que seria o seu último filme antes da sua morte, esquece a sua componente avaliativa e concentra-se - como é típico nos filmes desta altura sobre as memórias bélicas - nas experiências relembradas de uma geração mais velha para a nova, como se só interessasse a Imai, agora, que ninguém alguma vez duvida do que se passou, contra por vezes aquilo que se poderia chamar um esquecimento em virtude da distância temporal dos acontecimentos...



My Grandpa (2003) de Yoichi Higashi: **
Não é preciso escondê-lo: My Grandpa vale pela prestação de Bunta Sugawara. Higashi sabia-o e por isso todo o filme presta uma homenagem discreta a esta lenda viva dos filmes de yakuza, e apesar do desfecho demasiado abrupto, quase absurdo, quase mal-feito, ainda assim o filme consegue manter um equilíbrio entre tal personagem e o prazer de o ver.



Portrait of the Wind (2005) de Taro Hyugaji: **
Um filme com certos apontamentos perspicazes (a incompletude da cabeça da estátua da deusa Nike como metáfora para a maneira como se filma: do exterior não se pode deduzir o interior) mas não deixa de nos dar uma certa impressão de filme televisivo, com um Tadanobu Asano razoável no cômputo geral, com momentos de grande interpretação, mas outros bastantes insípidos e desinspirados, quase à imagem e semelhança do próprio engenho filmíco aqui em questão.



Donju (2009) de Hideaki Hosono: 0
Um monstruoso desperdício de talento: Asano, Kitamura, argumento de Kankuro Kudo. E tudo relembra uma imitação barata das comédias japonesas absurdas e espalhafatosas como Survive Style 5+ ou Funky Forest e é barata porque passamos o filme inteiro num flashback entediante, que demora muitíssimo a desenvolver, com piadas falhadas atrás de piadas falhadas para tudo se resumir numa mensagem fácil e quase incompreensível do que significa a amizade. Os filtros e o exagero cromático, com interpretações idiotas faz que tudo pareça um espectáculo de palhaços pobres em conteúdo, mas ricos em ouro.



Sweet Little Lies (2009) de Hitoshi Yazaki: ***
Depois do curioso exercício silencioso de March Comes In Like a Lion e do já amadurecido resultado de Strawberry Shortcakes, Yazaki lançou-se nesta aventura: a de filmar a vida bizarra de um jovem casal que faz da sua falta de comunicação uma espécie de entendimento superior, uma intuição de amor, quando, de facto, toda essa intuição se revela como um vestígio de um edifício já arruinado. Mergulhar no mundo destes personagens é quase sempre desconfortável e algo masoquista, mas não deixa de ser bastante interessante a maneira como Yazaki nos vai conseguindo imprimir essa sensação para depois nos apresentar um verdadeiro anti-climax, deixando-nos numa confusão um pouco desejada, mas ainda assim necessária para revelar a profundidade dos personagens.



I Wish (2011) de Hirokazu Koreeda: ***
Tentei não deixar que uma espécie de sentimento meloso (juntamente com a música e um ritmo de narrativa demasiado rápido, quase estranho ao cinema de Koreeda) me impossibilitasse de ver para lá daquilo que me estava sendo apresentado - o que em cinema e arte pode ser um problema: podemos de, facto, muitas vezes estar a ver artistas e não obras, ou melhor, obras através daquilo que achamos serem os artistas. Em todo o caso nesse aspecto considero-me guilty as charged , e a arte de I Wish é, lidando ainda com o tema obsessivo da ausência em tamanho reduzido de intensidades, tentar conservar aquilo que Koreeda vem fazendo desde, pelo menos, Maboroshi: captar as relações entre humanos, restituindo-lhes essa intimidade espontânea e natural. Não é assim o melhor Koreeda, porque a sua alegria aqui pode ser excessiva (mas também contagiante), mas pelo menos não representa uma tentativa aberrante como Air Doll, a saber, o facto de tentar ser-se "artístico" e espírito livre numa premissa que esconde enormes e obesas comercialidades...

Sem comentários:

Enviar um comentário