05/11/12

Fragmentos de 2011/12/17


The Straits of Love and Hate (1937) de Kenji Mizoguchi: ****
Quase uma obra-prima, este esquecido filme de Mizoguchi que - juntamente com os mais aclamados Osaka Elegy (1936) e Sisters of Gion (1936) - poderia fazer uma trilogia sobre anjos caídos, prostitutas abandonadas. É realmente trágica, a maneira como Mizoguchi renega os close-ups (nem um durante o filme todo) e o campo/contracampo, mantendo todas as personagens o mais distante possível da câmara, todas elas sujeitas a planos duros e longos, que afogam ainda mais as suas esperanças e tremores. Necessita urgentemente de uma melhor cópia e de um maior tratamento crítico.



Street of Violence (1950) de Satsuo Yamamoto: ***
A princípio pensei que estava a ver uma espécie de antítese do filme de Kurosawa do mesmo ano, Scandal, pela maneira como - ao contrário deste - conseguia descrever e defender o jornalismo como uma peça essencial na construção democrática de um Japão indigente, governado por rufias e mafiosos (não é por acaso que Battles Without Honor and Humanity começava no mercado negro!). Mas à medida que o filme passava, a trama principal ia-se desvanecendo em virtude da filmagem excessiva e algo panfletária de grandes comícios, entrevistas à população, relatos na terceira-pessoa sobre as tropelias dos mafiosos. Para além disso, por não ter um protagonista principal que permita uma identificação, mas vários interpretes, acabou por deixar tudo um bocado disperso em termos narrativos, em virtude de uma mensagem de alerta extremamente bem demarcada.



The Cart Song (1959) de Satsuo Yamamoto: ****
Um retrato neo-realista em forma de grande genealogia sobre as peripécias e os esforços quase sobre-humanos de uma família com grandes dificuldades económicas. Vemo-la nascer em virtude do amor de Seki (Yuko Mochizuki) e Moichi (Rentaro Mikuni: exímio papel, como sempre) e vemo-la lentamente desfalecer com a mesma preocupação social por parte do realizador, mas também histórica, porque afinal, os tempos de prosperidade desta grande família, assim como os seus tempos de tragédia são também os mesmos para o desenrolar da história japonesa, desde o seu milagre económico de princípio do século até à crepuscular era bélica. Satsuo Yamamoto consegue ainda assim sublinhar uma espécie de ética na personagem de Seki - é ela que é deserdada por amor e resolve os conflitos com a sua sogra, é ela que mais tarde, aguentará as traições do marido - tornando-a uma espécie de ideal de bondade no interior de uma classe social realmente precária em relação a tudo.



The Tycoon (1964) de Satsuo Yamamoto: *****
Um negro e crítico retrato do poder desmedido de um odioso, mas altamente sedutor capitalista (So Yamamura: talvez o seu melhor papel) e de como o seu trabalho altamente competitivo, selvagem e exaustivo se alastra no seu modo de vida intimo, no tratamento inquestionavelmente autoritário com a sua família e filho varão, nos relacionamentos com amantes compradas a seu bel-prazer (Ayako Wakao acaba por ser mais uma presa na teia do magnata) etc. O ritmo furioso da narrativa (como ela salta de assunto em assunto, sem nunca perder o fio à meada) aliado a interpretações simplesmente geniais, recordaram-me o seu outro filme The Ivory Tower, pelas melhores razões, sublinhando o carácter refinadamente crítico do cinema de Yamamoto, posicionando-o no lugar devido dos grandes mestres iconoclastas do pós-guerra, como Masumura ou Kobayashi. Aquela última sequência (comboio atropelando um carro) foi, como tantas outras, uma excelente solução imagética para fechar um filme denso e intenso como este, simbolizando o progresso desenfreado que acaba sempre por destruir o homem-comum, a despeito de toda essa propaganda ter sido prometida para ele!



Solar Eclipse (1975) de Satsuo Yamamoto: ***
Outro filme desconstrutivo de Yamamoto, desta vez centrando-se nos bastidores da activididade política e os seus intervenientes corruptos que demonstram um comportamento que mais se assemelha à mafia do que outra coisa. O problema principal é que - ao contrário de The Tycoon - o filme anda à deriva até apanhar finalmente, no último terço, todo o fulgor que é apanágio de Yamamoto. Aí brilha Mikuni com o seu espalhafatosimso, mas principalmente Tatsuya Nakadai que, juntamente com um carácter fleumático, alia à sua personagem um cinismo manhoso que é verdadeiramente o símbolo ideal para caracterizar uma classe política embriagada pelo poder e pelos seus frutos (argentários, entenda-se). Se fosse mais coeso, poderia ter ido ainda mais longe!



In the Realm of Sex (1977) de Masaru Konuma: **
Gostava mais de ter gostado desta absoluta paródia aos lugares comuns das produções roman-porno do que realmente gostei, e isso deve-se maioritariamente ao facto da sua estrutura ser tão caótica e desorganizada, com gags que vão do genial (aquela cena da Naomi Tani fez-me rir) ao mais brejeiro e infantil possível. Por outro lado, as cenas mais "sérias" foram bem apuradas e a ideia daquele personagem libertino (simbolizando o desejo anárquico, sem identidade) tem o seu quê de curioso.



Heaven Sent (1979) de Yoichi Maeda: ***
Uma comédia familiar típica da Shochiku que me conseguiu fazer rir à gargalhada num ou noutro momento. Gostei particularmente da prestação da Kaori Momoi que, com aquela expressão bem descontraída e descuidada, consegue tornar todo o filme ainda mais agradável e engraçado.



Writhing Tongue (1980) de Yoshitaro Nomura: ***
Há muito tempo que não me sentia tão desconfortável a ver um filme como este pesadelo de Nomura, que consegue realmente chegar a niveis de intensidade, violência e medo - principalmente porque, pelo menos a princípio, a principal víctima é uma criança indefesa - que são quase crueis e algo masoquistas. A outra razão porque todo o filme é chocante prende-se com o facto de que, sendo a vítima uma criança, o agressor - digamos assim, uma doença infecciosa - é impessoal, silencioso e, face ao desconhecimento dos efeitos do tétano, perigosamente aleatório. Uma real descida aos infernos por parte de um casal que, a pouco e pouco, vai perdendo toda a sanidade. Raramente um final mais leve seria bem-vindo - como foi - por mim.



Death of a Tea Master (1989) de Kei Kumai: ***
Se de Kumai já vimos algumas pérolas (The Sea and the Poison, Sandakan), não é com o mesmo entusiasmo fulguroso que podemos falar desta versão, feita no mesmo ano da de Hiroshi Teshigahara, da história do mestre de chá Sen no Rikyu. E embora o filme de Teshigahara fosse, a dada a altura, uma autêntica desconstrução imagética de toda a tradição estética zen (veja-se a cena final), a opção mais prevenida de Kumai foi montar uma trama recheada de flashbacks, que, de uma forma quase policial, tentaria desenhar um retrato-robô do monge Rikyo, a sua relação com Hideyoshi, e delinear as razões, aparentemente obscuras (quem tenha visto o filme de Teshigahara, não verá assim) da sua morte. Ao contrário do que estava a espera, achei a prestação de Mifune um pouco insuficiente (a estrutura em retalhos da narrativa não ajudou) se por exemplo compararmos com Rentaro Mikuni no filme de Teshigahara. Já Kinnosuke Nakamura rouba o espectáculo sempre que aparece.



Kakera: A Piece of Our Life (2009) de Momoko Ando: *
Não achei muita piada a esta primeira tentativa de Ando na realização. É verdade que a ambiência "dos novos talentos" japoneses tem muito de despreocupado, de quotidiano - sem ter uma carga qualquer melancólica, como acontecia nos anos 90 -, mas é preciso ter cuidado com tanta leveza, não vá ela tornar-se um quanto superficial e realmente comichosa. Outra situação que começo a achar estranha é a quantidade de filmes sobre relacionamentos lésbicos que são bastante semelhantes na sua abordagem, sublinhando a componente de descoberta, de pelo menos uma das parceiras (veja-se Love/Juice (2000), primeiro filme da neta de Kaneto Shindo, Kaze Shindo, ou por exemplo, um mais recente, Topless (2007) de Eiji Uchida). Será esta uma nova moda? Ou os autores de manga estão a ficar sem ideias?

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