29/10/12

Fragmentos de 2010/08/22



Night of the Felines (1972) de Noboru Tanaka: ****
Tanaka com este Night of the Felines convence-me, mais uma vez (a par com Kumashiro), que a melhor e mais aterrorizadora época da Roman-Porno foram os seus primeiros 4, 5 anos. Embora a narrativa seja tipicamente identificadora do género (as aventuras e desventuras sensuais de um grupo de "massagistas" no mundo suburbano de Tokyo), a sua execução e desenvolvimento em filme não deixa quaisquer dúvidas quanto ao mérito e criatividade de toda a equipa artística. Com um outro apontamento realmente fenomenal, este segundo filme de Tanaka é uma ode à despoetização do corpo e do sexo, num registo que, todavia, se esperaria fantasiado ou mesmo desejoso. Neste cinema, o ofício carnal é visto de maneira tão seca como as vidas dispares que se vão servindo dele. Aqui, há vidas de carne e osso, sem defesas ou ataques.  



The Rendezvous (1972) de Koichi Saito: ****
Esta primeira (e infelizmente imperfeita) tradução de um filme de Koichi Saito - esperaria ver mais cedo Tsugaru jongarabushi, a sua única participação no extenso catálogo ATG - fez-me descobrir mais um talento escondido desta era específica da cinefilia nipónica. Todo o ambiente deslocado e misterioso mais o longo aproveitamento imagético dos comboios e das linhas de ferro fizeram-me lembrar grandes obras da Nouvelle Vague como por exemplo Intentions of Murder de Imamura, Violence at High Noon de Oshima, e os anti-melodramas de Yoshida, mas este não é inteiramente um exercício radical como se poderia prever com esta associação. Poderia dizer que The Rendezvous é uma mistura bastante bem sucedida dos thrillers à Shochiku (por exemplo os de Yoshitaro Nomura) com um certo gosto e construção de picos contemplativos e imagéticos mais ambiciosos. 



Lovers are Wet (1973) de Tatsumi Kumashiro: ****
Tatsumi Kumashiro é um realizador, como se sabe, extremamente singular e a sua obra é portadora de uma estilística muito sui-generis e irrepetível; provando que de artesão em artesão, a vaga Roman Porno tinha mais sumo do que pareceria num primeiro lance. Lovers Are Wet é considerada por muitos críticos a sua obra mais completa e tal consideração não peca por excesso. Há muito mais do que sexualidades e desejos filtrados em película no mundo de Kumashiro. A temática do desejo erótico surge-nos aqui aterrorizada e envolvida numa paisagem quase onírica, de tão esmagadoramente despersonalizada que é. Outras singularidades típicas de Kumashiro (e atípicas para qualquer filme erótico) são as canções folclóricas, assaltando-nos numa envolvência quase etnológica daquela que é a cultura mais tradicional, popular do antigo Japão, mas também uma convicção (que aqui assume proporções gigantescas) que o erotismo e o sexo não é algo humoroso nem extasiante, mas embaraçoso e dormente, que carrega um certo pesar. Para não falar naqueles quadrados negros que na maior parte das vezes, não censuram nada e apenas representam um desejo frustrado e fetichista de ver algo. Para um cinema que supostamente mostraria aquilo que está escondido, Kumashiro desenha uma tragédia silenciosa (com pouco ou nada do que diz respeito a "prazeres alheios"), baseada em terríveis imagens e personagens indefiníveis.


About Love, Tokyo (1992) de Mitsuo Yanagimachi: ***
Não estando ao nível de outros dos seus filmes, Yanagimachi consegue caracterizar uma tumultuosa imagem do conflito de raças no Japão usando um conjunto de emigrantes chineses à procura de uma nova vida. Só que, quando o filme fazia anunciar um desenlace trágico para eclodir as consciências da maneira mais radical, acaba por finalizar-se da maneira mais aberta possível. Se com 19 Year Old e Farewell to the Land tal solução tinha resultado na perfeição, aqui deixa-nos com um sentimento de insatisfação algo inconsolável.



2/Duo (1997) de Nobuhiro Suwa: ****
Sabemos que os filmes de Suwa não são fáceis; o seu estilo representa a viragem angustiante de uma então nova geração de cineastas, contrafeitos com variadas inquietações. Por todo o lado ecoam as seguintes questões: o que filmar e como fazê-lo? Antes de ser um filme sobre juventude e problemas conjugais pós-modernos, 2/Duo é um filme estimulante, feito de pedaços e estilhaços, para procurar a sua própria resolução no processo caótico que é a filmagem. 



Minazuki (1999) de Rokuro Mochizuki: *
O percurso de Rokuro Mochizuki não é muito encorajador. Dos filmes que vi todos parecem ter mais ou menos a mesma fórmula: histórias de traição e violência (ver yakuza) com um pano de fundo romântico/erótico . Minazuki, que é considerada por vários a sua obra mais aconselhável, é mais do mesmo: um filme demasiado longo com uma narrativa que se inicia convenientemente mas logo caí no aborrecimento e numa previsibilidade atroz. Os actores, ainda assim, salvam o filme de alguns bocejos.


Nagisa (2000) de Masaru Konuma: **
Não deixa de ser irónico que um realizador especialista no género S&M, remontando aos dias fervorosos da Roman-Porno Nikkatsuana, acabaria por realizar um filme de primeiros amores imaculados (literalmente) como o seu "testamento cinematográfico". Konuma, desta feita, não entra em excessos e entrega-nos um filme bastante linear (alguns poderiam mesmo dizer académico), mas repleto de amor e dedicação pelos seus personagens. Uma boa entrada para os filmes de Verão sobre o crescimento.



Shangri-La (2002) de Takashi Miike: 0
Por não pertencer ao seu período mais recente de actividade (os últimos quatro, cinco anos) e por parecer assemelhar-se a um lado mais gentil da sua filmografia, poder-se-ia pensar que Shangri-La era um filme com uma qualidade equiparável a The Bird People, Guys from Paradise etc. Infelizmente, tal não é o caso. Aos vícios de um argumento entediante, junta-se uma realização verdadeiramente desapegada que faz que nem Sho Aikawa (com uma das suas mais fraquinhas prestações) salve o edifício de cair.


Yoshino's Barber Shop (2004) de Naoko Ogigami: **
Naoko Ogigami - uma das maiores esperanças femininas do cinema japonês da última década, juntamente com Nami Iguchi - realiza na sua primeira longa-metragem um filme entretido mas que, visto retrospectivamente (como eu o vi), fica aquém de Kamome Dinner ou mesmo Megane. Como alguém dizia, a virtude do estilo de Ogigami é o "estar-se" e não o "ir-se" (a fórmula ecoa noutros casos de cinema japonês independente), e em Yoshino's Barber Shop nota-se uma certa mistura de se "estar" e de se "ir" para algum lado. O filme não aborrece e o estilo de Ogigami até está consolidado, mas não se consegue mergulhar o espectador completamente nas ambiências simples, sorridentes e relaxantes dos seus outros filmes posteriores. Ainda assim, um razoável começo com um punhado de personagens amáveis, quase tirados de um livro de crianças.

28/10/12

Fragmentos de 2010/05/01



Farewell to the Land (1982) de Mitsuo Yanagimachi: *****
Este é dos grandes filmes dos anos 80. Um marco a todos os níveis e um testemunho de niilismo como só Yanagimachi poderia filmar. Como dizia Donald Richie acerca da estilística Yanagimachiana: "não explica, demonstra". E, de facto, é porque o centro de gravidade cinematográfico está totalmente transportado para a imediatez do acto e a sua violência quase selvagem à beira da depressão, que também a prestação do enorme Jinpachi Nezu sidera e nos aliena.



Carnival in the Night (1982) de Masashi Yamamoto: ****
Carnival in the Night é um exercício despido de formalismos, que acompanha e supera (no que diz respeito à sua crueza despojada) toda a geração cinéfila Punk: Tsukamoto, Matsui, e até mesmo Sogo Ishii. Tal frieza da câmara parece reportar-nos aos antípodas de um cinema íntimo, mas é na constante distância e na bestial violência, que se vai construindo uma intimidade perversa com aquela mulher nos limites da vida e da morte. Mas o seu sorriso final e a cor que vai e vem no preto-e-branco comprovam que quanto mais condenado se tornar, mais amor e compaixão teremos pelo género humano e a sua dor.



Death Shadow (1986) de Hideo Gosha: **
Death Shadow é um dos últimos chanbaras de Hideo Gosha. A passos, visualmente espantoso e formalmente belo, tem, ainda assim, o mesmo problema (mas agravado) de "Bandits Vs Samurais" (1978) ou "Hunter in the Dark" (1979), isto é, uma narrativa que tropeça constantemente e ora é rápida nos desenlaces, ora é extremamente lenta noutros momentos mortos. Assim, este é uma película que tem o problema de ser demasiado longa para o que oferece. Isto comprova-se pelo facto de o filme parecer estar sempre a acabar, sendo os últimos 30 minutos, encenações de "combates finais" repetidos até já não haver mais personagens para matar. No entanto,  a componente visual e a encenação digna de um dos maiores mestres do género, conseguem manter entretido o espectador. Um Gosha menor, mas de não se evitar completamente.
 


Shadow of China (1990) de Mitsuo Yanagimachi: **
Uma co-produção de diferentes países com os problemas do costume: apressado, por vezes desconexo, em chininglês, mas ainda assim com um argumento mais ou menos digno. Apesar das falhas de comunicação difíceis de superar, o retrato de uma China pós-Tiananmen a partir de uma Hong-Kong sem identidade e imersa num marasmo capitalista, não deixa de ter o seu quê de interessante e captivante como proposta.



Now, I... (2007) de Yasutomo Chikuma: ***
Filme inteiramente denso e hermético sobre um problema sério demais para ser filmado de ânimo leve. De ânimo pesado - eu diria - o jovem actor/realizador consegue, no entanto, transmitir mais do que uma mera representação da realidade. É na transgressão dessa coisa real e no choro final que algo mais transparece. Mas depois a câmara morre. E é no silêncio dessa indefinição que permanecemos...



Symbol (2009) de Hitoshi Matsumoto: 0
Big Man Japan (2007) tinha sido um exercício um tanto entediante para um cómico televisivo tão folioso como é o membro do duo Downtown. Para seu segundo filme na cadeira de realizador, Hitoshi Matsumoto decidiu mudar ligeiramente o tom da comédia e ajustá-la mais ao seu humor habitual dos Batsu Game - o comportamento ines(deses)perado face a situações absurdas, persistentes e humilhantes. O resultado é uma mistela de humor físico e ridículo (por vezes, simpático, mas de modo geral, frustrado) com a mais pura das mensagens existencialistas de pacotilha. Os últimos minutos, nos quais nos é revelada a possibilidade do homem tornar-se divino, descobrindo o carácter aberto do futuro (e que, portanto, somos causas dos nossos efeitos), é, de facto, uma metáfora demasiado barata para ser digerível, ainda por cima quando tudo isto está aliado a uma estética de videoclip pretensamente "avant-garde" que, à falta de melhor, se recheia de variadas imagens à la youtube para provar que desde a cara mediatizada do Presidente Obama, passando pelas flores a desabrochar e finalizando com um pinguim a tropeçar no gelo, tudo é de facto relativo. Um aparte: A ideia que os japoneses fazem filmes "malucos" (e que, por serem malucos, são geniais) é uma estratégia de marketing boa para atrair gente que exclusivamente fala de forma, e pouco de conteúdos. Memorando: não se é mais "fixe" (nem mais indie), só porque se vê filmes japoneses...

Fragmentos de 2010/03/15


Erotic Liaisons (1992) de Koji Wakamatsu: *
Produzido pelo odioso Kazuyoshi Okuyama, este pequeno e insignificante filme fica na história antes que não seja por ser o embaraço fílmico de Koji Wakamatsu, e o último filme de Yuya Uchida no qual ele encarna uma personagem principal (depois de alguns míticos papeis durante os anos 80). Se Wakamatsu aqui pactua e demais com o sistema dos reducionismos comerciais (tudo é de uma facilidade bocejante), o discurso inicial de uma responsável de Estado francesa, é prova de um auto-flagelamento diabólico: "um filme ridículo feito com yens japoneses". Como se Wakamatsu se estivesse a rir desalmadamente da sua figura num espelho: de revolucionário belicoso a corsário ressacado. O dinheiro (ou a necessidade dele) faz destas coisas...



Barren Illusions (1999) de Kiyoshi Kurosawa: ***
Se Kairo era a canonização artística de problemas de comunicabilidade graves, este é o seu antecedente perfeito. Barren Illusions tem até algo de Tsai Ming Liang: a ocupação física dos corpos é mesmo posta em questão com um fade metafórico sobre o corpo do protagonista, como se, a mente se evaporasse no silêncio da sua melancolia. Para não adiantar mais, poder-se-ia dizer que Barren Illusions é o típico filme que, centrando-se na confusão indistinta do silêncio, se faz desaparecer sensivelmente, como o sol que se esconde tristemente nas nuvens.



Hole in the Sky (2001) de Kazuyoshi Kumakiri: ****
Este filmão de Kumakiri (autor famigerado pelo gore e pela negritude) escapa a qualquer expectativa. Interpretado pelo magnífico Susumu Terajima (talvez o papel da sua vida) e pela igualmente virtuosa Rinko Kikuchi, Hole in the Sky actua num registo tão subtil que o seu poder só pode residir mesmo no não-expresso, no visto. Imersos nas paisagens desoladas e tristes de Hokkaido, é com uma consequente necessidade de afinidades que o próprio espectador observa os personagens enlaçarem-se e desenlaçarem-se. E nada de mais silencioso e de deserto, do que aquele plano de Terajima olhando para o seu reflexo solitário numa poça de água.



Antenna (2004) de Kazuyoshi Kumakiri: **
Querendo ser amargurado na descrição dos afectos humanos, Kumakiri desenha uma espécie de petulância filmica, com traumas à mistura e uma narrativa propositadamente disjunta e aguçada nos picos. O resultado final, surpreendentemente, é muito menor do que se esperava. Para além da interpretação de Ryo Kase, o mundo de Antena é, quase, bizarramente ridículo e, quer sejamos surrealistas ou não, pouco convincente. 



Green Mind, Metal Bats (2006) de Kazuyoshi Kumakiri: ***
Honestamente cinematógrafo: no "meio" é que está a virtude. E, de facto, com poucos meios também se fazem boas propostas. Kumakiri aqui liga histórias, personagens de uma real sensibilidade e passados reencontrados num filme que se consagra, muito para além do baseball. De realçar a aparição rara de Koji Wakamatsu! 



Freesia: Bullet Over Tears (2007) de Kazuyoshi Kumakiri: *
Desonestamente cinematógrafo: no "extremo" é que está a virtude. Freesia é o típico falhanço do manga caprichoso a querer ser filme. A narrativa e os personagens - que se querem apáticos, como verdadeiras odes à insensibilidade - deixam-nos a nós, indolentes, desinteressados, monstruosamente entediados com tanto pretensiosismo e com tanto "querer" ter estilo à banda-desenhada.



Non-ko (2008) de Kazuyoshi Kumakiri: ***
Um regresso parcial àquilo que tinha corrido tão bem, Non-ko serve como pedra-de-toque para as relações conflituosas no silêncio de A Hole in the Sky. Se, não há dois filmes iguais, Kumakiri centra-se desta vez (e ao contrário de Hole) na mulher que necessita amar, tortuosamente e nem sempre da maneira mais esclarecida. O final tem algo de sincero e intimista, pois que se anuncia uma possibilidade para, fora do filme, nas nossas cabecinhas, a coisa correr bem.



The Cannery Boat (2009) de Sabu: ***
Esta esperada adaptação, pela mão do desaparecido (mas não morto!) Sabu, de um célebre romance do comunista Takiji Kobayashi (e que serviu de base para um remake do filme com o mesmo título, feito em 1953 pelo actor-realizador Sô Yamamura) levava a crer que este seria um projecto de alto risco. Por um lado, por dificilmente sair da prisão criativa que é o remake, e por outro pelo facto inegável de que a própria história original pudesse ser associada a uma temática que aparentemente nos dirá pouco nesta viragem da década. Pois bem, Sabu não desiludiu, e Kanikôsen consegue, de alguma forma, transcender a categorização de filme histórico e é como se de uma alegoria se tratasse. O problema da alienação do trabalho, da exploração e submissão imperial é entrelaçada com o estudo humanista dos personagens que, ao contactarem com os russos, aprendem o caminho ora radiante, ora tortuoso da liberdade (e Ryuhei Matsuda: que papel!). De facto, sofremos por elas e é com elas que descobriremos a esperança (mas só ela). Afinal, outra coisa não se pediria para Kanikôsen funcionar, isto é, tornar o histórico, narrativo. O político em pathos.

Fragmentos de 2010/03/06


The New Earth (1937) de Arnold Fanck e Mansaku Itami: 0
O evidente (ou forçado?) esquecimento desta co-produção alemã (Arnold Franck) e japonesa (Mansaku Itami: pai de Juzo Itami) por parte da bem pensância, fazia anunciar a possibilidade deste ser um filme para apagar das memórias. De facto, um filme propagandista e nacionalista como The New Earth envergonha qualquer espectador de cinema e não só esse. Aqui enxergamos o passado Histórico e não estórico. Desde os cansativos símbolos nacionais, repetidos e filmados incessantemente - como se se quisesse expor um certo vigor nipónico aos nazis, que os vêem de fora, mas são os seus potenciais aliados - até aos discursos heróicos (e duvidosos) das "essências" dos povos e das nações, à apologia da obrigação colectiva face ao individualismo (teoricamente) decadente da modernidade. E depois, as referências realmente perversas (porque se assemelham a inocências ideais) à situação da Manchúria (a expansão militar e territorial profetizada por Kita Ikki que morrera, justamente, no mesmo ano de 1937). E o final, tão extremamente abjecto, tão disforme e tão enganador. Porque o império sucumbiria, porque os filhos da terra falharam, porque nada aqui (e acolá) há ou houve de real, mas de ilusório. Quando o cinema era deliberadamente uma máquina de pretensa verdade. Nada de mais assustador, nada de mais mentiroso. E eu que queria ver um filme com a Setsuko Hara (que mesmo assim, coitada, faz o que pode com os seus ingénuos 17 anos).



August in the water (1995) de Sogo Ishii: ***
Não costumo agarrar-me à ideia de Nirvana como consolo metafísico, mas este filme de Sogo Ishii certamente alcança zonas imagéticas e sensoriais muito semelhantes a essa experiência de esvaziamento cósmico, levando-nos a sonhar, nem que por curtos instantes, na água, sobre o nada...



Happy-Go-Lucky (1997) de Tetsuya Nakashima: ****
Se os outros três filmes disponíveis de Nakashima (Kamikaze Girls, Memories of Matsuko e Paco Magical Book) eram caracterizados pelo uso massivo de engenhos não narrativos que reforçavam ou encolerizavam o corpo do filme, pode-se dizer que este Happy-Go-Lucky, a sua primeira longa metragem promete já o que viria a ser o estilo inconfundível do mais "pop" dos realizadores japoneses. Todavia, mais do que a rapidez da montagem e dos toques irreais e caricaturais, contempla-se aqui um enorme suspiro veranil à The Taste of Tea, por exemplo. Isto é, o filme consegue chegar a um nível de familiaridade e de sussurro gentil que, há planos, em que esquecemos que a câmara está lá. Esta invisibilidade do realizador e dessa gente que vive atrás das câmaras - que tão bem o cinema japonês (principalmente quando o Verão é retratado) consegue filmar- consegue fazer-nos sorrir, mesmo num dia chuvoso.



My Darling of the Mountains (2007) de Katsuhito Ishii: **
Katsuhito Ishii - ávido admirador de Hiroshi Shimizu - pretendeu aqui demonstrar a sua admiração por esse clássico realizador negligenciado. Admiração essa, tão inconsequente que o levou a replicar, sequência a sequência, frame a frame o já emblemático filme de 1938, The Masseurs and a Woman. O resultado é tão estranho quanto insípido. Já que se trata de uma dupla restituição (anos 30 mais todo o resto do filme) faz-nos sentir deslocados, como a olhar para um espelho que reflecte uma imagem igual e dissemelhante, mais cheio de fantasia nostálgica do que outra coisa. Ainda assim, prefiro o de Shimizu (e era difícil não o preferir) já que tudo (actores, paisagem, a própria câmara) está mais incorporado numa inescrutável autenticidade.

Fragmentos de 2010/01/06


Crossroads (1928) de Teinosuke Kinugasa: ****
Mais um admirável exemplo do poder mirabolante das primeiras obras de Kinugasa! Mesmo não estando ao nível da loucura experimental de A Page of Madness, a mesma estética onírica está bem demarcada em planos tormentosos e numa história terrificamente trágica, sem deixar de ser destemperadamente sóbria. Se Page of Madness com a sua desconstrução pura poderia ser equiparado aos pesadelos de Yoshida ou Oshima; este Crossroads tem razões para ser o antepassado vigoroso - por causa da sua claustrofobia e do seu sentido alienado e alienante - de Shura por Toshio Matsumoto!



The Elegant Life of Mr. Everyman (1963) de Kihachi Okamoto: ***
Curiosa esta comédia inteligente de Okamoto, que apenas peca por durar demasiado. Apesar disso, tem pormenores - que ao roçarem o absurdo do quotidiano - nos arrancam uma ou outra risada gulosa. De realçar, Keiju Kobayashi que está simplesmente genial.  



Blue Film Woman (1969) de Kan Mukai: 0
Após os entusiásticos e, talvez precipitados, elogios de Jasper Sharp - o entendido "pink" - a Blue Film Woman e ao seu autor Kan Mukai, tinha de ver com os meus próprios olhos aquele que foi, considerando algumas vozes, "o único grande rival de Koji Wakamatsu". O resultado foi um filme desastrado, melodramático na pretensão de ser sóbrio e que reúne uma história sem tragédia a umas interpretações canastronas. Em suma, um filme fraco e até previsível - apesar da excelente sequência inicial - e que me faz reforçar a ideia que até à revolução roman-porno da Nikkatsu, o único grande cineasta pink até finais de 60, era Wakamatsu.



Double Suicide of Sonezaki (1978) de Yasuzo Masumura: ***
Esta segunda e última obra ATG de Masumura foi uma agradável (e talvez literal demais, sem o engenho de um Shinoda) transposição de uma peça de Mozaemon Chikamatsu. Se já sabemos qual o valor das actrizes nos filmes de Masumura (relembre-se os papelões de Ayako Wakao) , desta vez é Meiko Kaji que faz o filme, com uma interpretação sensacional e que apara algumas falhas de "over-acting" do inexperiente Ryudo Uzaki (que nos brinda, ainda assim, com uma estonteante banda-sonora).



All Under the Moon (1993) de Yoichi Sai: ***
Desde que vi o documentário oshimano 100 Years of Japanese Cinema que fiquei com uma ligeira vontade de ver este filme de Yoichi Sai. Embora comece bastante bem, a verdade é que All Under the Moon vai perdendo força consoante a narrativa se vai desenvolvendo. Claro que, sendo este um filme vindo do cineasta japonês mais conhecido com origens coreanas, o tema acaba por funcionar: porque nestas coisas dos "clichés" (do "todos somos seres humanos" que fere os ouvidos atentos) quanto mais se esconder, quanto maior o pudor de revelar, mais digna nos parecerá a conclusão. E All Under the Moon nunca cai nessa tentação de evidenciar seja o que for de naturezas humanas de pacotilha. No entanto, o problema parece-me ser este: (problema comum a certos filmes japoneses dos anos 90; os filmes de Naoto Takenaka, por exemplo) apagando os cumes e o desenlace na narrativa, condensando as emoções a uma alegria esparsa e morna (que é a alegria possível no mundo da rotina, bem o sabemos), o espectador deixa de ter consciência que há algo de maior, por detrás daquilo que vê. Os filmes que sofrem desta pequena falha são aqueles que, por sintoma, parecem que estão sempre a acabar, ou seja, que o valor da cena que continua, para além daquela que devia acabar o filme, é, na maior parte dos casos, nulo.



Tokyo Rendez-vous (2008) de Chihiro Ikeda: **
Embora ache adorável este filme da estreante Chihiro Ikeda, por vezes pareceu-me que se esqueceu do que quer dizer "subtileza", isto é, o imperativo de não ser óbvio; demonstrar o indemonstrável nas pequenas coisas que nos escapam. A mim, parece-me que o ritmo demasiado lento permitiu que essa subtileza se perdesse, em parte, pela tentativa de tornar mais real o que se filmava. Embora seja este uma questão de equilíbrios (e que ele há, há) a subtileza nem sempre anda de mão dada com o ritmo pausado da realidade, e em rigor, não ficamos a saber se foi a subtileza ou a falta dela que está expressa nos diálogos e na própria maneira de filmar.



The Blood of Rebirth (2009) de Toshiaki Toyoda: ****
Apesar de ter estreado dia 19 do mês passado nos cinemas japoneses, um screener do último filme de Toyoda (depois de um hiato de quatro anos) apareceu surpreendentemente, desafiando todas as expectativas! E se o filme é uma adaptação de uma peça "sobrenatural" de Hangan Oguri, as marcas estilísticas de Toyoda estão cá todas: rebelião, o gosto pelos forasteiros, mas principalmente a soberba e inteligente maneira de filmar, tendo a música (só Toyoda podia filmar aqueles 30 minutos finais, elevando o filme para toda outra dimensão) o papel de possibilitar o cunho avassalador das imagens. Apesar do final feliz (?), este The Blood of Rebirth faz, certamente parte, daqueles pesadelos japoneses das vinganças como pano de fundo. Foi bastante bom ver outra vez Toyoda em grande forma.

Fragmentos de 2009/11/09



Cruel Tales of Bushido (1963) de Tadashi Imai: *****
Há bastante tempo que esperava poder vir a contemplar um filme de Tadashi Imai, o realizador socialista nipónico por excelência. E nada melhor do que este estudo genealógico ao inconsciente colectivo japonês. A obediência cega levada ao extremo da crueldade entre os senhores e os escravos, e a sublimação desse carácter num esquema repetitivo e atávico ao longo das gerações, levam-nos a um pathos desesperante no qual só os últimos planos complementam a esperança de no presente a maldição conseguir ser quebrada. 



The Age of Assassins (1967) de Kihachi Okamoto: ****
Fantástico filme-bomba de Okamoto. No words needed! Pura Farra!



The Devils Temple (1969)
de Kenji Misumi: ****
Um grande cast (Shintaro Katsu, Hideko Takamine, Kei Sato, Michiyo Aratama) reunido num filme curto mas bastante intenso, baseado num conto de Junichiro Tanizaki, com um argumento escrito pelo grande Kaneto Shindo. Grandes momentos num confronto de pureza e vício. Viva Misumi.



Summer Soldiers (1972) de Hiroshi Teshigahara: ***
Só agora é que consegui ver este filme de Teshigahara. Sendo a sua obra mais atípica, não é de estranhar que a câmara perca aqui a sua gravidade formal e se liberte mais, filmando o quotidiano enclausurado dos G.I desertores americanos, inclusive com monólogos diante da câmara. Naquilo que é um cruzamento com cinema verité e ficção (assemelhando-se. portanto, bastante mais à Nouvelle Vague Francesa do que propriamente com os pesadelos à Japonesa), Teshigahara sai-se bem, documentando com uma certa liberdade o desespero que a ausência da guerra pode provocar àqueles que sempre viveram com ela.



The Music (1972) de Yasuzo Masumura: ****
Mais um ATG digno de referência e veneração. Desta vez, Masumura filma como Mishima escreve: psicanalíticamente. Quadro de uma patologia, Masumura filma uma mulher complexa, criando uma sessão colectiva de psicanálise onde as imagens do delírio e as mentiras ressentidas e recalcadas vão-se enredando numa trama quase policial. Muito bom!



The 19 Year Old's Map (1979) de Mitsuo Yanagimachi: ****
Depois da lição de cinema que é Himatsuri (1985), fica-nos disponível mais uma obra de Mitsuo Yanagimachi, baseada, noutro escrito violento de Kenji Nakagami. Não é estranho, por isso, que nos seja servido aqui mais um daqueles filmes tipicamente niilistas e angustiados da juventude do final dos anos 70, princípio de 80. Pelo seu melancólico slow-pace fez-me lembrar Sado de Yoichi Higashi e pela sua violência contida, anti-social e monstruosa, Youth Killer de Kazuhiko Hasegawa (outro filme baseado num romance de Kenji Nakagami). Há um comentário no IMDB que penso fazer justiça à mensagem sombria deste tipo de filmes, do qual este não é excepção (e se tanto Sado como este 19 Year Old Map acabam com os personagens a correr febrilmente não é por acaso): We can neither live happily nor kill ourselves. We must keep running...



Pig Chicken Suicide (1981) de Yoshihiko Matsui: *
Eis que surgiram legendas para o percursor temático de Noisy Requiem, só que ao contrário deste último, Pig Chicken Suicide é um exercício excessivo de paciência não só face à narrativa disjunta, no limite do incompreensível, mas também (pasme-se) face ao próprio horror e repulsa que se assiste a toda hora. Igualmente centrado na discriminação e no amor extremo (uma versão contemporânea do amour-fou), Pig Chicken deixa-se levar por excessivos e exíguos experimentalismos (sendo, em grande parte, desnecessárias e gratuitas várias cenas de mortes de animais, etc.), tornando-se, assim, numa pequeníssima obra comparada à genialidade grandiosa de Noisy Requiem. Só alguns planos mais arrojados é que fazem, ainda assim, adivinhar a capacidade destrutiva do cinema de Matsui.

25/10/12

Fragmentos de 2009/10/09



The Priest of Darkness (1936) de Sadao Yamanaka: ****
Finalmente pude ver o último filme sobrevivente da filmografia de Yamanaka! E o que dizer? A genialidade prematura do realizador de Humanity and Paper Balloons ressalta aqui mais uma vez, numa narrativa com tons pessimistas, mas com seus grandes momentos de humor reluzente e caracterizações geniais. Os últimos planos anárquicos são um óptimo contraponto com o seu último filme: ambos trágicos, mas um silencioso e o outro barulhento. Adorei ver a Setsuko Hara tão jovem e já cheia de talento e expressividade!



Sudden Rain (1956) de Mikio Naruse: ****
Mais um filme gentil sobre as problemáticas relações de marido e mulher. De destacar as excelentes prestações e a subtileza narusiana com olhares, gestos e até um jogo de bola para caracterizar as peripécias, mais ou menos graves, do dia-a-dia conjugal. É um filme óptimo para acompanhar com Repast (1951), Wife (1953) ou Husband and Wife (1953). E maravilhosa Setsuko Hara!



Wife's Heart (1956) de Mikio Naruse: ****
Wife's Heart esconde na sua aparente paz (de ritmo e narrativa) relações e intentos violentos. Os toques subtis de Naruse (não é que sejam silenciosos, mas há que ler nas entrelinhas sempre!) quase que minam as estruturas familiares, mormente a relação conjugal - que não é inteiramente feliz no caso (e quase sempre na sua filmografia). Mas o filme acaba e é como se tivesse começado. Não há mudança, quando tudo poderia mudar. É essa apatia definitivamente a mais pessimista, é a narusiana por excelência. De destacar a excelente Hideko Takamine e a aparição fortuita de Toshiro Mifune num registo completamente diferente do que estamos habituados!
 


Nikudan (1968) de Kihachi Okamoto: ***
Esperava também mais desta sátira, principlamente vindo de quem vem. Quanto ao relembrar Katsu Kanai, passou-me exactamente o mesmo no bestunto quando a voz-off da criança apareceu (lembrou-me aquele plano assustador do Deserted Archipelago onde o míudo lê a história do Rato). O facto deste filme ter sido rodado em 16mm sublinhou ainda mais aquela composição alongada dos planos de Kanai. Mesmo assim, sobre Nikudan, genial foi só mesmo o final. Aquele corte para 1968 com a juventude na praia e o que daí se segue, deu aquela sensação irónico-descontrutiva das primeiras produções ATG.



Deserted Archipelago (1969) de Katsu Kanai: *****
Revisto com melhor qualidade, devido à saida tão esperada das obras completas de Kanai Katsu em DVD, Deserted Archipelago ainda assim me supreende, após tantos revisionamentos. Um exercício surreal, um ensaio insano da traumática vida do pós-guerra Japonês (e não há definição mais melancólica desse Japão do que "Arquípelago deserto"!). O fracasso das batalhas, a dependência do moralismo corrupto das freiras macabras, o abandono do filho (que nasce nas costas do protagonista!), tudo isso desenvolve verticalmente um filme de imagens pessimistas e angustiantes.



Good-Bye (1971) de Katsu Kanai: **
O elo mais fraco da trilogia The Smiling Milky Way. Katsu procura as suas origens mais remotas, num road-movie bizarro, com confrontos de identidade, metáforas existenciais etc. Mesmo revendo-o (com melhor qualidade e disposição) ainda o acho demasiado incompreensível e com certas cenas gratuitas e sem grande sentido (mesmo que, com Katsu Kanai se tenha de pensar sempre duas vezes). O plano final, por exemplo, representa um grande ponto-de-interrogação.



Mandala (1971) de Akio Jissoji: *****
Finalmente ficou disponível com uma nova tradução as legendas da segunda parte da trilogia budista ATG de Akio Jissoji! Medo! Nunca vi um filme tão inspirado em Georges Bataille como Mandala. É sabido que a tendência de realizadores como Nagisa Oshima, Kiju Yoshida, Masao Adachi e Yasuzo Masumura entre outros seria a de aproximar as teorias sobre o erotismo de Georges Bataille a uma compreensão japonesa da morte e dos corpos. Espero poder falar do filme com mais profundidade da próxima vez mas queria só citar esta frase de Bataille para se notar a imensa proximidade entre ambas as obras: "Do Erotismo se pode dizer que é a aprovação da vida até na própria morte."



Dear Summer Sister (1972) de Nagisa Oshima: ***
Qualquer Oshima me põe ansioso, e este Dear Summer Sister era, justamente, um dos que me faltavam ver, restando apenas agora, sem contar com os seus documentários, The Catch (1961) e Band of Ninja (1967). No seu cerne, este é mais um filme de Oshima que funciona todo ele como uma alegoria feita por blocos metafóricos. Por isso mesmo, é sempre saudoso ver o Oshima Gang em acção (Rokko Toura, Hosei Komatsu, Kei Sato, Akiko Koyama etc.) e a sempre genial, aqui mais de Verão, música de Toru Takemitsu. Desta vez, penetra-se no problema de Okinawa, pequena terra amaldiçoada pela guerra, não só porque nela se travou das maiores batalhas do Pacífico (ver o filme de Okamoto ajuda), como porque logo após a guerra, a terra foi entregue aos americanos, provocando todo o tipo de celeuma estudantil e política ao longo dos anos 50 e 60. Talvez a melhor imagem do filme, sem ser a óbvia do "brotherless child" (como se Okinawa estivesse perdendo a identidade, como se o pai lhe fosse desconhecido), é a do Japonês e a do Okinawiano feitos um para o outro, no sentido, em que se amam e odeiam, muito ao jeito de certas personagens Oshimanas que se complementam precisamente por serem duas forças opostas.
 

 
The Kingdom (1973) de Katsu Kanai: ****
O único filme dos três que ainda não tinha visto, mas que esperava há muito principalmente pela sinopse no site de Katsu Kanai. "Even if we were to deny all gods, there is one god controlling us, one god whom we cannot refuse: the god of time." De facto, The Kingdom poderia descrever-se como esse "desafio" a Cronos, Pai de Zeus, conhecido na mitologia grega por devorar os seus próprios filhos. Goku, o personagem principal, é o filho tentado a subverter as regras da existência, que não se pode conceber sem temporalidade. Epopeia kitsch como define Katsu Kanai, The Kingdom promete ser matéria para pensamento, com um final deveras misterioso, quase sagrado. (e aqueles risos com a boca fechada! Medo!)



The Excitment of the Do-Re-Mi-Fa Girl (1985) de Kiyoshi Kurosawa: **
Com Shinji Aoyama apelidando-o de um dos filmes mais marcantes da sua geração, este prematuro filme de Kiyoshi Kurosawa é certamente desconstrutivo e, por vezes, cómico, porém, perde-se bastante em delírios "pink" ou até de outra natureza mais intelectual. É, sobretudo, um filme com grandes momentos individuais e que tem um gostinho também meu no que diz respeito a ridicularizar o ambiente universitário. Quem conhece Kurosawa pela sua faceta mais terror, vai ter aqui uma surpreendente amálgama de personagens, histórias e momentos bizarros bem ao modo do pink dos anos 80.



Noisy Requiem (1988) de Yoshihiko Matsui: *****
Reza a lenda que Shuji Terayama, depois de ler o script de Noisy Requiem (morrera antes de o ver completo) disse: "seria um escândalo se fosse feito em filme". De facto, a palavra escandalo é das mais merecidas, pois poucos filmes são tão monstruosos como este. Noisy Requiem é talvez o filme mais transgressivo que vi, um dos mais angustiantes e solitários. É escandaloso, mas não menos verdadeiro e audaz, o modo como a monstruosidade humana é filmada, sem esperança e fechada em si mesma numa tragédia tautológica de proporções desumanas. Um filme como este - devedor estilístico de cineastas independentes e alegóricos como Katsu Kanai ou o próprio Shuji Terayama - semeia tristeza e tragédia com um olho de solilóquio, mas também com uma capacidade alegórica absolutamente destrutiva. A dimensão trágica vem da inexprimível solidão dos "monstros" que habitam a tela, na procura de amores que ultrapassem a (sua) realidade, virtuais, por isso, na sua essência. Matsui filma o caos amoroso e a impossibilidade do triunfo da imaginação, mas igualmente descreve as relações sexuais como violação (na esteira de Terayama). Um mundo assim filmado, tão cruel e inóspito faz-nos escandalizar lenta e rigorosamente. Noisy Requiem era exactamente o que eu esperava dele: um pesadelo cinematográfico sem par, um filme tão perfeito quanto abjecto que à semelhança da luz solar, quanto mais se olha para ele, mais vontade temos de esquivar a vista.  



Four Days of Snow and Blood (1989) de Hideo Gosha: ***
Não sei se sou eu ou não, mas os últimos filmes de Hideo Gosha (quase todos os da década de 80) são insípidos e bastante repetitivos. Não é o caso de serem maus filmes, são de uma razoabilidade irritante. Este 226 era um dos últimos que me faltava ver e não estava com grandes expectativas, porém revelou-se uma experiência feliz. Como tema tem o único golpe de estado jamais cometido no Japão, o célebre Ni Ni Roku. Só que ao contrário de um Coup D'État de Yoshida, que prescrutava a base teorética do acontecimento pela figura misteriosa do filósofo Kita Ikki, no filme de Gosha a narrativa vira-se para os soldados e os generais que executaram o golpe de estado e, mais tarde, tiveram de cometer suícidio por alta traição. É assim, uma representação realista sem esconder um profundo sentimento de tristeza e frustração. Os últimos minutos do filme são de uma intensidade dramática fenomenal, como se Gosha tivesse representado cinematograficamente o último e fugaz fechar de olhos antes de se puxar aquele angustiante gatilho.