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05/11/12

Fragmentos de 2011/12/17


The Straits of Love and Hate (1937) de Kenji Mizoguchi: ****
Quase uma obra-prima, este esquecido filme de Mizoguchi que - juntamente com os mais aclamados Osaka Elegy (1936) e Sisters of Gion (1936) - poderia fazer uma trilogia sobre anjos caídos, prostitutas abandonadas. É realmente trágica, a maneira como Mizoguchi renega os close-ups (nem um durante o filme todo) e o campo/contracampo, mantendo todas as personagens o mais distante possível da câmara, todas elas sujeitas a planos duros e longos, que afogam ainda mais as suas esperanças e tremores. Necessita urgentemente de uma melhor cópia e de um maior tratamento crítico.



Street of Violence (1950) de Satsuo Yamamoto: ***
A princípio pensei que estava a ver uma espécie de antítese do filme de Kurosawa do mesmo ano, Scandal, pela maneira como - ao contrário deste - conseguia descrever e defender o jornalismo como uma peça essencial na construção democrática de um Japão indigente, governado por rufias e mafiosos (não é por acaso que Battles Without Honor and Humanity começava no mercado negro!). Mas à medida que o filme passava, a trama principal ia-se desvanecendo em virtude da filmagem excessiva e algo panfletária de grandes comícios, entrevistas à população, relatos na terceira-pessoa sobre as tropelias dos mafiosos. Para além disso, por não ter um protagonista principal que permita uma identificação, mas vários interpretes, acabou por deixar tudo um bocado disperso em termos narrativos, em virtude de uma mensagem de alerta extremamente bem demarcada.



The Cart Song (1959) de Satsuo Yamamoto: ****
Um retrato neo-realista em forma de grande genealogia sobre as peripécias e os esforços quase sobre-humanos de uma família com grandes dificuldades económicas. Vemo-la nascer em virtude do amor de Seki (Yuko Mochizuki) e Moichi (Rentaro Mikuni: exímio papel, como sempre) e vemo-la lentamente desfalecer com a mesma preocupação social por parte do realizador, mas também histórica, porque afinal, os tempos de prosperidade desta grande família, assim como os seus tempos de tragédia são também os mesmos para o desenrolar da história japonesa, desde o seu milagre económico de princípio do século até à crepuscular era bélica. Satsuo Yamamoto consegue ainda assim sublinhar uma espécie de ética na personagem de Seki - é ela que é deserdada por amor e resolve os conflitos com a sua sogra, é ela que mais tarde, aguentará as traições do marido - tornando-a uma espécie de ideal de bondade no interior de uma classe social realmente precária em relação a tudo.



The Tycoon (1964) de Satsuo Yamamoto: *****
Um negro e crítico retrato do poder desmedido de um odioso, mas altamente sedutor capitalista (So Yamamura: talvez o seu melhor papel) e de como o seu trabalho altamente competitivo, selvagem e exaustivo se alastra no seu modo de vida intimo, no tratamento inquestionavelmente autoritário com a sua família e filho varão, nos relacionamentos com amantes compradas a seu bel-prazer (Ayako Wakao acaba por ser mais uma presa na teia do magnata) etc. O ritmo furioso da narrativa (como ela salta de assunto em assunto, sem nunca perder o fio à meada) aliado a interpretações simplesmente geniais, recordaram-me o seu outro filme The Ivory Tower, pelas melhores razões, sublinhando o carácter refinadamente crítico do cinema de Yamamoto, posicionando-o no lugar devido dos grandes mestres iconoclastas do pós-guerra, como Masumura ou Kobayashi. Aquela última sequência (comboio atropelando um carro) foi, como tantas outras, uma excelente solução imagética para fechar um filme denso e intenso como este, simbolizando o progresso desenfreado que acaba sempre por destruir o homem-comum, a despeito de toda essa propaganda ter sido prometida para ele!



Solar Eclipse (1975) de Satsuo Yamamoto: ***
Outro filme desconstrutivo de Yamamoto, desta vez centrando-se nos bastidores da activididade política e os seus intervenientes corruptos que demonstram um comportamento que mais se assemelha à mafia do que outra coisa. O problema principal é que - ao contrário de The Tycoon - o filme anda à deriva até apanhar finalmente, no último terço, todo o fulgor que é apanágio de Yamamoto. Aí brilha Mikuni com o seu espalhafatosimso, mas principalmente Tatsuya Nakadai que, juntamente com um carácter fleumático, alia à sua personagem um cinismo manhoso que é verdadeiramente o símbolo ideal para caracterizar uma classe política embriagada pelo poder e pelos seus frutos (argentários, entenda-se). Se fosse mais coeso, poderia ter ido ainda mais longe!



In the Realm of Sex (1977) de Masaru Konuma: **
Gostava mais de ter gostado desta absoluta paródia aos lugares comuns das produções roman-porno do que realmente gostei, e isso deve-se maioritariamente ao facto da sua estrutura ser tão caótica e desorganizada, com gags que vão do genial (aquela cena da Naomi Tani fez-me rir) ao mais brejeiro e infantil possível. Por outro lado, as cenas mais "sérias" foram bem apuradas e a ideia daquele personagem libertino (simbolizando o desejo anárquico, sem identidade) tem o seu quê de curioso.



Heaven Sent (1979) de Yoichi Maeda: ***
Uma comédia familiar típica da Shochiku que me conseguiu fazer rir à gargalhada num ou noutro momento. Gostei particularmente da prestação da Kaori Momoi que, com aquela expressão bem descontraída e descuidada, consegue tornar todo o filme ainda mais agradável e engraçado.



Writhing Tongue (1980) de Yoshitaro Nomura: ***
Há muito tempo que não me sentia tão desconfortável a ver um filme como este pesadelo de Nomura, que consegue realmente chegar a niveis de intensidade, violência e medo - principalmente porque, pelo menos a princípio, a principal víctima é uma criança indefesa - que são quase crueis e algo masoquistas. A outra razão porque todo o filme é chocante prende-se com o facto de que, sendo a vítima uma criança, o agressor - digamos assim, uma doença infecciosa - é impessoal, silencioso e, face ao desconhecimento dos efeitos do tétano, perigosamente aleatório. Uma real descida aos infernos por parte de um casal que, a pouco e pouco, vai perdendo toda a sanidade. Raramente um final mais leve seria bem-vindo - como foi - por mim.



Death of a Tea Master (1989) de Kei Kumai: ***
Se de Kumai já vimos algumas pérolas (The Sea and the Poison, Sandakan), não é com o mesmo entusiasmo fulguroso que podemos falar desta versão, feita no mesmo ano da de Hiroshi Teshigahara, da história do mestre de chá Sen no Rikyu. E embora o filme de Teshigahara fosse, a dada a altura, uma autêntica desconstrução imagética de toda a tradição estética zen (veja-se a cena final), a opção mais prevenida de Kumai foi montar uma trama recheada de flashbacks, que, de uma forma quase policial, tentaria desenhar um retrato-robô do monge Rikyo, a sua relação com Hideyoshi, e delinear as razões, aparentemente obscuras (quem tenha visto o filme de Teshigahara, não verá assim) da sua morte. Ao contrário do que estava a espera, achei a prestação de Mifune um pouco insuficiente (a estrutura em retalhos da narrativa não ajudou) se por exemplo compararmos com Rentaro Mikuni no filme de Teshigahara. Já Kinnosuke Nakamura rouba o espectáculo sempre que aparece.



Kakera: A Piece of Our Life (2009) de Momoko Ando: *
Não achei muita piada a esta primeira tentativa de Ando na realização. É verdade que a ambiência "dos novos talentos" japoneses tem muito de despreocupado, de quotidiano - sem ter uma carga qualquer melancólica, como acontecia nos anos 90 -, mas é preciso ter cuidado com tanta leveza, não vá ela tornar-se um quanto superficial e realmente comichosa. Outra situação que começo a achar estranha é a quantidade de filmes sobre relacionamentos lésbicos que são bastante semelhantes na sua abordagem, sublinhando a componente de descoberta, de pelo menos uma das parceiras (veja-se Love/Juice (2000), primeiro filme da neta de Kaneto Shindo, Kaze Shindo, ou por exemplo, um mais recente, Topless (2007) de Eiji Uchida). Será esta uma nova moda? Ou os autores de manga estão a ficar sem ideias?

04/11/12

Fragmentos de 2011/12/02


Cuban Lover (1969) de Kazuo Kuroki: ****
Produzido por Noriaki Tsuchimoto em terras cubanas, este filme do aprimorado Kazuo Kuroki - muita embora seja produto de improvisos sobre improvisos - consegue estupendamente ainda jogar com uma dimensão alegórica que, retomando certa tendência da altura, uma história de amor com base nos seus arredores espaciais, consegue replicar ou encenar o que seria o encontro real entre dois países, se eles magicamente se personificassem e se apaixonassem. O personagem de Tsugawa é portanto símbolo de um Japão turista que se enamora, por não conhecer (ou já se ter esquecido) da pobreza e da luta pela revolução daí consequente. Tudo é, portanto turismo para este personagem, repugnante por um lado, muitíssimo familiar por outro. A rapariga cubana, tal como todo o ambiente da ilha de Fidel, é filmado com esse estrangeirismo sempre apaixonado e idealista. Mas essa paixão é ela mesma vítima de uma visão turística e pouco sábia, quando comparada com a profundidade dos problemas sociais e da memória revolucionária cubana, alegoricamente representada pela rapariga que nunca perceberá o Japão, mesmo que o ame. Por jogar constantemente com este tipo de paradoxos e contradições, este filme - à primeira vista propagandístico - é bastante mais rico e complexo do que poderia parecer, pois joga ele mesmo com as fraquezas dos seus personagens, não as escondendo, mas desenvolvendo-as para provar a radical impermeabilidade entre culturas e indivíduos.



Curse of God Dog (1977) de Shunya Ito: **
Posterior aos seus três famosos filmes da saga Female Prisoner Scorpion , este exercício assombrado parecia ser a maneira ideal de Shunya Ito compactar o seu talento visual (enquadramentos, cores) com apontamentos surreais e de desconstrução da própria imagem (pense-se na estilística realmente alucinante de Female Convict Scorpion Jailhouse 41, essa obra-prima bastante subvalorizada). Pois bem, se tal talento não se lhe nega, o argumento, já isso, é vítima de uma enorme suspeita, ficando com enormes omissões, personagens mal desenvolvidas, e se o próprio ritmo da narrativa é exageradamente a despachar no início, lá para o fim as coisas começam a ficar mais oníricas, não se sabe se de propósito ou não. Pior do que tudo isso, é que em termos diegéticos, a metáfora de "cuida da natureza ou então ela não cuidará de nós" podia ter sido muito melhor explorada (veja-se Fire Festival de Yanagimachi) cruzando-se isso com um filme de amaldiçoamentos fantasmagóricos que, apesar de fornercerem umas quantas cenas aprimoradas (a cena do exorcismo, por exemplo), pareciam ter ficado melhor no papel do que em película.



The Shogun Assassins (1979) de Sadao Nakajima: **
Este épico da Toei remonta à altura em que o estúdio deixara os seus filmes de yakuza e virara-se para longos filmes de época com inúmeros personagens e complexas tramas, com uma componente dedicada quase exclusivamente ao entretenimento. Se a versão Fukusakiana desta tendência, The Shogun's Samurai conseguia uma mistura realmente inovadora de géneros, sem perder o pé quanto a uma narrativa que se poderia facilmente perder, com esta nova tentativa, Nakajima executa pior do que o seu companheiro de estúdio, se bem que as suas qualidades como contador de histórias dificilmente podiam ter sido como as de Fukasaku, visto a dificuldade da tarefa. De facto, não se trata mesmo de um problema de duração, mas a de uma mistura de géneros algo esquizofrénica (ninjas, cometas?, filme de guerra à Kurosawa?) que nos confunde um pouco a seriedade e já que se aproveitaram algumas personagens históricas, o relato é decididamente anti-histórico e anti-fáctico. Isso até pode ser bom noutras circunstâncias, mas aqui só nos confunde ainda mais. Sadao Nakajima, apesar de nos manter os frissons, e de ter algumas ideias bem pensadas, parece estar sempre a construir castelos de areia, numa maré confusa que rapidamente os deita abaixo.



Night in the Nude: Salvation (2010) de Takashi Ishii: 0
Tudo o que aparentemente podiamos conceber de meritório no trabalho de Ishii vai pelo cano abaixo nesta ridícula retoma de narrativa, mais de quinze anos depois do seu outro Night in the Nude (sem o Salvation). Insuficiente história para a cansativa duração, personagens de uma superficialidade atroz (para não falar na representação duvidosa de certos actores) e, pior do que tudo isso, um tratamento de imagem muito insípido se compararmos este filme aos seus predecessores, com um digital tímido e sequências algo amadoras. Até os sucessivos fades revelam uma sensibilidade foleira na montagem.



Permanent Nobara (2010) de Daihachi Yoshida: ***
Após um fulgurante início de carreira e de um segundo filme menos inspirado, mas ainda assim interessante noutras leituras, Daihachi Yoshida lança-se num produção típica de uma certa onda estética (que condiciona a temática) do cinema japonês: ambientes sossegados, rurais ou litorais, personagens inofensivas mas idiossincráticas e um gosto requintado por mulheres pouco usuais. Mas, com este retrato que podia cair na repetição total de certos lugares-comuns alternativos (também o alternativo tem a sua sombra), Yoshida dá meia-volta e desenvolve complexamente a personagem principal, que parecia ficar naquela indescritibilidade própria deste tipo de heróinas contemporâneas. Essa reviravolta, que se concentra no último terço do filme, deu um outro sabor à experiência toda, provando, outra vez, que Daihachi Yoshida é um caso a seguir futuramente na geração japonesa, infelizmente pouco inventiva, das promessas mais recentes.



Sketches of Kaitan City (2010) de Kazuyoshi Kumakiri: *****
O que Kumakiri tinha proposto fazer aqui era, no mínimo, arriscado. Adaptar as pequenas histórias de Yasushi Sato, que se suicidara antes de terminá-las era uma tarefa labírintica, pois tal como no caso do seu autor, havia perigo de derrocada criativa. O filme, portanto, tem este contacto realmente místico não só com a sua incompletude, mas com o carácter fragmentário da própria vida dessas personagens gélidas e embaciadas, como as ruas e o mar de Kaitan, filmado com uma sensibilidade infrene, que estando em todo o lado e em cada plano, se parece ir perdendo suavemente, à medida que nos despedimos dos silencios, do vento e do sol encoberto que carregam as montanhas. Nada nos impede de sermos afectados pelos casos específicos aqui apresentados, mas o peso que julgamos carregar depois de sairmos de lá é o peso de toda a humanidade. A isso, se juntarmos os nocturnos de Jim O'Rourke, ficamos com uma verdadeira experiência cinematográfica!

03/11/12

Fragmentos de 2011/11/20


Souls on the Road (1921) de Minoru Murata: **
Este filme mudo de Murata foi importante para o cinema japonês por razões históricas, mas tirando esses contornos de genealogista, perpassa por todo o filme um sentimento de pré-história cinematográfica, mesmo sabendo que - tal como na arte da fotografia - o seu início e advento não significa necessariamente precariedade nas técnicas e nos meios de contar uma narrativa.



Golgo 13 (1973) de Jun'ya Sato: 0
Esta primeira adaptação imagem real do famoso assassino Golgo 13 (a segunda seria protagonizada por Sonny Chiba, e que embora insuficiente, é melhor do que esta) tem a mesma irritante estrutura de filme de importação que Jun'ya Sato com grande espírito corporativista repetia ano após ano na Toei. Seguem-se alguns pontos negativos: um Ken Takakura frouxo e descaracterizado com o seu ar sempre impenetrável (quando Golgo deveria ter menos bushido e mais intuição de manhoso) adicionado a bocejantes sequências de acção mal coreografada e - pior do que tudo o mais - a estrageirada dobrada por actores japoneses que dá um ar simplesmente barato e apressado a algo que pretendia ser uma super-produção entre dois países.



Outlaw Cop (1976) de Yusuke Watanabe: ****
Este one-shot de Yusuke Watanabe é um bom retrato da sobriedade de um cinema de meados dos anos 70 que consegue equilibrar rasgos de violência contida com os ares sorumbáticos e melancólicos de um Yoshio Harada totalmente inclassificável, aqui interpretando um ex-polícia totalmente obcecado por apanhar um ex-convicto. De notar o extraordinário despojamento aquando da sua captura como um quebrar de lugares-comuns nas entrelinhas, mesmo sendo um filme de género, com as suas particularidades repetíveis. Isso e mais uns freeze-frames bélicos (fiquei com aquele freeze-frame que introduz o título na cabeça!) elevam este Outlaw Cop para os melhores e mais intensos lugares.



Utamaro's World (1977) de Akio Jissoji: *****
Embora seja um retrato bastante diferente, mesmo historicamente inverosímil, daquilo que os escassos dados históricos nos revelam sobre Utamaro, esta versão de Jissoji mostra-nos um personagem abstracto, dividido entre uma obsessão pela pintura, e uma entrega aos prazeres da carne, que ele próprio considera como efémeros e transientes. Noutros filmes, como por exemplo Edo Porn de Kaneto Shindo ou até mesmo a versão Mizoguchiana, Utamaro and his Five Women demonstravam-se os acessos de sofrimento, ou de êxtase dos pintores, ou de quem os acompanhava de perto. Aqui, Jissoji prefere desvendar primeiro o mundo em torno de Utamaro, e para isso, tinha de filmar Edo no final do Século XVIII com uma radicalidade que lhe é característica, para, assim depois, poder delinear os contornos do coração do artista. Tudo está no mesmo plano: a arte e a sexualidade, o teatro e a ladroagem, a riqueza e a pobreza. Jissoji poder-se-á até ter esticado em demasia, por filmar tanto erotismo e com contornos tão perversos, mas Utamaro é visto aqui como esse artista que descobre que a vida "é um sonho dentro de um sonho", isto é, que da vida, da carne concreta, não se pode confiar muito. As próprias pinturas são vistas assim como uma entrega ao nada primordial de onde se veio. A obsessão de Utamaro é assim, a obsessão de toda a (sua) arte (não esqueçamos que Ukiyo-e quer dizer pinturas do mundo flutuante): visionar a vida a partir dos antípodas, vê-la através do sonho que faz tudo tornar efémero, pois tudo pertence ao movimento. Nada, em cada momento, permanece igual. Akio Jissoji filma como a besta cinematográfica que é. Certos momentos são agonizantes, outros são de um êxtase absoluto. Embora seja marca de realizador, a própria filmagem dá-nos tematicamente a procura angustiosa do pintor embriagado pelo devir.



Flesh Target Rape! (1979) de Yukihiro Sawada: 0
É preciso ser bem mais inteligente para se ser provocador. E se neste roman-porno mais tardio (influenciado por uma moda, introduzida particularmente por Yasuharu Hasebe, a saber, a moda da violação) a vida do homem comum assalariado passa por uma revolução, que não é mais do que uma revolta sexual, todos esses esquemas parecem sempre pretextos um quanto vazios para se encher um filme com uma hora e dez minutos de misoginia e supremacia masculina, quando nem há, por parte do espectador, nem por parte do realizador grandes identificações, nem narrativa sequer. Apenas uma quantidade cansativa e interminável de sexo imposto, que vai-se a ver, ainda se torna desejado...



Bicycle Sighs (1991) de Sion Sono: *
Sono aqui ainda era um tímido realizador (não a caricatura de provocador, que mais tarde se tornou) que tentava aliar confissões privadas com uma simbologia algo velada, mas um pouco mais comunicável. Esta história dos desencontros afectivos de três personagens remete ela própria para uma certa nostalgia com cinema amador à mistura. Mas, apesar de uns momentos mais surreais, nem a carga emotiva é grande, nem ela é profunda para ser silenciosa, e por isso a cena final não tem o impacto que se desejaria.



War and Youth (1991) de Tadashi Imai: ***
É conhecida a asserção de que os realizadores da geração de 40 foram sempre assombrados pelo fantasma da 2ª Guerra Mundial, uns mais cedo na sua carreira (Kobayashi, Okamoto, Ichikawa, Shindo), uns mais tarde (Kinoshita, Kurosawa) mas houve sempre aqueles que desde sempre foram críticos ávidos dos infortúnios da virtude e do espírito japonês, cuja consequência mais flagrante foi o desfecho da guerra em 45. Tadashi Imai - juntamente com Yasuzo Masumura ou Satsuo Yamamoto - foi um deles: dos seus filmes disponíveis (e oxalá venham mais!) há sempre um sentido crítico, virado para as experiências de uma classe explorada que por tradição histórica e arcaica se mantém presa num atavismo perturbador. Com alguma curiosidade, este que seria o seu último filme antes da sua morte, esquece a sua componente avaliativa e concentra-se - como é típico nos filmes desta altura sobre as memórias bélicas - nas experiências relembradas de uma geração mais velha para a nova, como se só interessasse a Imai, agora, que ninguém alguma vez duvida do que se passou, contra por vezes aquilo que se poderia chamar um esquecimento em virtude da distância temporal dos acontecimentos...



My Grandpa (2003) de Yoichi Higashi: **
Não é preciso escondê-lo: My Grandpa vale pela prestação de Bunta Sugawara. Higashi sabia-o e por isso todo o filme presta uma homenagem discreta a esta lenda viva dos filmes de yakuza, e apesar do desfecho demasiado abrupto, quase absurdo, quase mal-feito, ainda assim o filme consegue manter um equilíbrio entre tal personagem e o prazer de o ver.



Portrait of the Wind (2005) de Taro Hyugaji: **
Um filme com certos apontamentos perspicazes (a incompletude da cabeça da estátua da deusa Nike como metáfora para a maneira como se filma: do exterior não se pode deduzir o interior) mas não deixa de nos dar uma certa impressão de filme televisivo, com um Tadanobu Asano razoável no cômputo geral, com momentos de grande interpretação, mas outros bastantes insípidos e desinspirados, quase à imagem e semelhança do próprio engenho filmíco aqui em questão.



Donju (2009) de Hideaki Hosono: 0
Um monstruoso desperdício de talento: Asano, Kitamura, argumento de Kankuro Kudo. E tudo relembra uma imitação barata das comédias japonesas absurdas e espalhafatosas como Survive Style 5+ ou Funky Forest e é barata porque passamos o filme inteiro num flashback entediante, que demora muitíssimo a desenvolver, com piadas falhadas atrás de piadas falhadas para tudo se resumir numa mensagem fácil e quase incompreensível do que significa a amizade. Os filtros e o exagero cromático, com interpretações idiotas faz que tudo pareça um espectáculo de palhaços pobres em conteúdo, mas ricos em ouro.



Sweet Little Lies (2009) de Hitoshi Yazaki: ***
Depois do curioso exercício silencioso de March Comes In Like a Lion e do já amadurecido resultado de Strawberry Shortcakes, Yazaki lançou-se nesta aventura: a de filmar a vida bizarra de um jovem casal que faz da sua falta de comunicação uma espécie de entendimento superior, uma intuição de amor, quando, de facto, toda essa intuição se revela como um vestígio de um edifício já arruinado. Mergulhar no mundo destes personagens é quase sempre desconfortável e algo masoquista, mas não deixa de ser bastante interessante a maneira como Yazaki nos vai conseguindo imprimir essa sensação para depois nos apresentar um verdadeiro anti-climax, deixando-nos numa confusão um pouco desejada, mas ainda assim necessária para revelar a profundidade dos personagens.



I Wish (2011) de Hirokazu Koreeda: ***
Tentei não deixar que uma espécie de sentimento meloso (juntamente com a música e um ritmo de narrativa demasiado rápido, quase estranho ao cinema de Koreeda) me impossibilitasse de ver para lá daquilo que me estava sendo apresentado - o que em cinema e arte pode ser um problema: podemos de, facto, muitas vezes estar a ver artistas e não obras, ou melhor, obras através daquilo que achamos serem os artistas. Em todo o caso nesse aspecto considero-me guilty as charged , e a arte de I Wish é, lidando ainda com o tema obsessivo da ausência em tamanho reduzido de intensidades, tentar conservar aquilo que Koreeda vem fazendo desde, pelo menos, Maboroshi: captar as relações entre humanos, restituindo-lhes essa intimidade espontânea e natural. Não é assim o melhor Koreeda, porque a sua alegria aqui pode ser excessiva (mas também contagiante), mas pelo menos não representa uma tentativa aberrante como Air Doll, a saber, o facto de tentar ser-se "artístico" e espírito livre numa premissa que esconde enormes e obesas comercialidades...

Fragmentos de 2011/09/22


Intimidation (1960) de Koreyoshi Kurahara: ***
Um film-noir curto, mas empolgante, atmosférico (é esta a palavra ideal para toda a boxset da Criterion) e que, para além de alguns planos bem conseguidos e carregados de tensão (os sons e certos objectos que, por serem repetidos com outra carga, sublinham os frissons) , consegue encher o espectador com reviravoltas narrativas bem suculentas, aliando tudo isso a um certo canto pessimista sobre a ambição desmedida e amizade.



The Warped Ones (1960) de Koreyoshi Kurahara: *****
Não é exagero nenhum dizer que, se por esta altura, a Nouvelle Vague Shochiku fazia os possíveis e os impossíveis para apimentar o clima artesanal cinematográfico, apostando no tema da juventude revoltada para aquecer os ânimos, Kurahara com esta obra-prima parecia que nem se esforçava para fazê-lo, e melhor o fazia. E se alguns podem criticar a falta deliberada de esquemas narrativos, grandes significados metafóricos ou intuitos sociais mais avançados, é porque The Warped Ones vê-se como se ouve jazz: basta ter uma personagem melodiosa para tudo o resto, por improviso, nascer.



The Conspirator (1961) de Daisuke Ito: ***
Não é uma obra-prima como o seu The Ambitious , mas não esconde alguma considerável perícia técnica aliada à narrativa, principalmente na última cena: sepukku sangrento, com uma honra retorcida e por isso mesmo, dramática.



A Wife Confesses (1961) de Yasuzo Masumura: ****
Começa como um relâmpago e nunca deixa de encadear os olhos com a sua furiosa atmosfera e ritmo. Passado num tribunal, com flash-backs à thriller, Masumura engendra uma espécie de drama despedaçado, onde o espectador não é jamais deixado incólume quanto a juízos de carácter. O personagem masculino é assim o típico espectador (homem) nesta descida aos infernos que é feminina, e, por esse mesmo facto, vai de julgamento em julgamento, de amor em desamor, até acabar solitário e mudo, enquanto os desenlaces se efectuam a despeito dele mesmo.



I Hate But Love (1962) de Koreyoshi Kurahara: **
O duo romântico típico da Nikkatsu, Yujiro Ishihara e Ruriko Asaoka, protagonizam esta aparente comédia de paixões, que se revela um drama ligeiro sobre o amor verdadeiro. Ainda que a maneira como se sobreleva o romantismo do personagem principal, por ser, justamente, contra todo o sistema televisivo e sua namorada, me faça lembrar as considerações sociais e metafóricas do primeiro Masumura, aqui custou-me ver a personagem de Asaoka, que, no início do filme parecia tão promissora, reduzida a queixume melodramático por umas quantas longas e repetitivas sequências. Apesar disso, o final do filme é a prova de como "de palavras" também este filme não foi só feito.



Black Sun (1964) de Koreyoshi Kurahara: ***
Black Sun executa pior o que, por comparação, The Warped Ones significava: por um lado, a tentativa de dar uma narrativa precisa ao que, por anarquia, se parecia constituir por si próprio, depois, tentar subjugar isso a uma mensagem. Não é que, certos momentos sejam de valor, mas parece-me que, se o anterior filme era, de facto, uma transposição perfeita para cinema do que é o jazz, aqui - e mesmo com a fenomenal banda-sonora de Max Roach - o jazz aparece em segundo-plano, embora aparentemente esteja muito mais presente no meio de toda a narrativa. Um tem a estrutura do jazz, outro cita-o abundantemente.



Fort Graveyard (1965) de Kihachi Okamoto: ****
Um filme bélico, sempre entretido e criativo - com um Toshiro Mifune sério a contrabalançar o espectáculo de pantomina - provando, mais uma vez, que Okamoto é o mestre das trági-comédias.



The Thirst for Love (1966) de Koreyoshi Kurahara: ****
Esta adaptação de um romance escrito por Yukio Mishima demonstra-nos Ruriko Asaoka em todo o seu esplendor, com uma interpretação complexa e atormentada por belezas viscerais (tal é o centro de toda a inquietação de Mishima: como é que algo que faz descer à fatalidade, isto é, a beleza, pode sobreviver e permanecer soberana no mundo e nem ter consciência disso mesmo). Mesmo com uma cena final tão intensa como aquela, a única coisa que ainda assim lamentamos é não ser tão radicalmente extasiante como, por exemplo, as obras desta altura de Yoshida ou de Imamura.



Abortion (1966) de Masao Adachi: ***
Embora este exercício especulativo e singularmente metafórico esteja recheado de corajosas experimentações, é ainda como obra de intervalo que Abortion se apresenta. Se, aliás, o personagem principal, negro ginecologista com inquietações identitárias, partilha do mesmo nome do agressor edipiano de The Embryo Hunts in Secret é porque ambos representam uma constelação de um cinema por vir: a sexualidade transcende a procriação ou o desejo ardente e faz-se matéria questionante, a matéria de que os sonhos e as alucinações são feitos.



Drifting Avenger (1968) de Jun'ya Sato: 0
No decorrer de uma retrospectiva dos filmes disponíveis de Jun'ya Sato, eis que faltava esta bizarra proposta dos estúdios Toei, filmada na Austrália (porque uma pradaria não tem nacionalidade). Segundo o seu comunicado de imprensa da altura, diziam eles que este era um western com uma sensibilidade japonesa. Quando o filme acabou, já não sabia dizer se o que tinha visto era um western, ou se era, de todo, um filme japonês com uma cambada de péssimos actores ocidentais tristemente dobrados por outros actores japoneses. Já Ken Takakura não se sai muito melhor e parece simplesmente deslocado de uma super-produção que afinal não era assim tão super como se pensava (Jun'ya Sato nem travelings faz: para mover a câmara, recua com o zoom). A narrativa também é ela de uma simplicidade aterradora, provando que filmes baseados num actor tem apetência para correrem muito mal.



Sword of Fury (1973) de Tai Kato: *****
Depois de ver a trilogia de Inagaki e os cinco filmes de Uchida, não há dúvida de que quem ganha a medalha de ouro, no que a adaptações do mítico Musashi Miyamoto dizem respeito, é Tai Kato com esta inteligente versão, muito mais curta, mas mais intensa e crítica do que as anteriores (esqueçam o herói zen, aqui Miyamoto é duvidoso, às vezes cínico, mas apesar de tudo matreiro). Uma palavra quanto à estética: este é simultaneamente o filme mais bem filmado de Kato, o mais minucioso e aquele no qual o uso dos seus famosos "low-angles" atinge o zénite da sua perfeição!



Rhyme of Vengeance (1977) de Kon Ichikawa: **
Neste segundo filme das aventuras do inspector Kindaichi, Ichikawa não lança o seu olhar mais longe do que lançara com The Inugami Family. Mesma estrutura de filme, jogando pela defesa, com um academismo que, por sua sorte, até funciona já que são os desenvolvimentos da narrativa e o seu desenlace (replicando a estrutura policial dos romances adaptados) que conta mais. Ainda assim - e mesmo com 2 horas e meia de filme - sempre temos Tomisaburo Wakayama para nos deliciar...



Flames of Blood (1981) de Tai Kato: ****
O que dissemos sobre Sword of Fury dizemos deste último filme de Kato: exigente tecnicamente, muito bem construído narrativamente. É também sempre agradável ver um filme em torno do grande Bunta Sugawara, que aqui arrecada um dos mais satisfatórios papéis da sua carreira.

02/11/12

Fragmentos de 2011/08/10


Stolen Desire (1958) de Shohei Imamura: ***
Primeiro filme de Imamura e, ainda pecando por falta de subtileza, já se pode considerar um filme marcante da sua carreira. Alguém disse que este poderia ser já um filme contestatário da estilística da velha guarda (Ozu: iniciante de Imamura). Depois de ver um filme de Kawashima e contrabalançando com este, percebe-se que esse mesmo seria o verdadeiro mestre de Imamura.



Nishi Ginza Station (1958) de Shohei Imamura: **
Este segundo e curto filme de Imamura representa, em primeiro lugar, um retrocesso face ao seu já maduro primeiro filme. Aproximando-se da lógica de um filme encomendado pela Nikkatsu, mesmo assim, Imamura consegue salpicar a película com alguns momentos de sátira sexual, trabalhando-se assim uma visão ácida e corrosiva do papel do casamento e do homem assalariado no final dos anos 50.



Ningen (1962) de Kaneto Shindo: ***
Shindo filma aqui uma espécie de precursor formal de Onibaba: poucos meios, quatro ou cinco personagens (grande cast) e um enredo, que desformalizado, pretende ir à essência das coisas (ou seja, o registo é o alegórico). Também tal como o filme de 64, aqui Shindo define o que é o homem através das suas zonas limítrofes. Só desconstruíndo é que se pode enxergar o processo de construção. Apesar de tudo bater certo, podemos ficar com a sensação de que a matemática alegórica pode ser uma simplificação de enredo e personagens, embora certas cenas sejam argutas, como não poderiam deixar de ser.



A Gambler's Life: The Massacring Fudo (1969) de Kimiyoshi Yasuda: **
Este que é o último filme de Raizo Ichikawa meses antes da sua morte prematura, representa a última vaga de filmes da Daiei que fecharia também as portas uns anos depois. É um filme de despedida, embora seja uma program picture como muitas outras, realizada com a mestria artesanal que é apanágio do estúdio.



Battles Without Honor and Humanity: Aftermath (1979) de Eiichi Kudo: *****
Uma estonteante pérola desconhecida. Assim poderíamos falar deste último capítulo (da descontínua saga de 9 filmes, oito deles realizados por Kinji Fukasaku) Battles Without Honor and Humanity. Neste último capítulo, Eiichi Kudo esforça-se por afastar os típicos tiques que tornaram a série um marco na história do cinema japonês. Câmara distante dos personagens, teimosia no plano fixo mesmo sendo este um filme de acção (Fukasaku, sabemos, usava a câmara livre como se fosse um olho humano a agonizar), e a construção de um ambiente meio desolador, meio dormente, à la final dos anos 70, em que a orquestra furiosa dos outros filmes é substituída por canções enka amarguradas. E depois, há Jinpachi Nezu que aqui, mais uma vez, está simplesmente siderante.



Seven Days War (1988) de Hiroshi Sugawara: **
Esta produção dos anos 80 é o típico filme Kadokawa direccionado para um público mais juvenil. Se a Kadokawa fica para a história como sendo não só a primeira "casa" dos primeiros filmes de Shinji Somai, mas também por nos ter oferecido pequenas pérolas como W's Tragedy ou The Beast To Die, tal surpresa não se pode aplicar a este entretido mas frustrado exercício de simplicidade, ainda que pudesse parecer que no, decorrer das primeiras sequências, iríamos presenciar hiperbolismos que, dentro da crítica leve do ensino demasiado autoritário, seriam muito bem-vindos.



Tokiwa: The Manga Apartment (1996) de Jun Ichikawa: ****
O célebre mutismo de Ichikawa e a sua idiossincrática maneira de filmar - como quem se detêm em cada cena, não como sequência de uma outra, mas como uma fotografia ou as linhas de um haiku - estão no seu apogeu nesta adaptação da célebre e verídica história dos apartamentos Tokiwa. Quem sabe um pouco de história do Manga, sabe eventualmente reconhecer os nomes dos personagens que perfilam neste exercício zen: Osamu Tezuka, Fujiko Fujio, Shotaro Ishinomori, Fujio Akatsuka e mesmo o "pessimista" Yoshiharu Tsuge. A escolha de Ichikawa em escolher um manga-ka muito menos conhecido, Hiroo Terada como centro da acção, relembra-me o mote ozuesco (provando que Ichikawa foi o último verdadeiro sucessor desse estilo) de que se deve "esconder o que o espectador mais quer ver". Assim, o cinema será a arte do resto, a vida enquanto vida e não a vida como espectáculo. Ichikawa neste Tokiwa, consegue exactamente isso mesmo: uma visão natural, e não naturalista, da arte, da vida e dos seus protagonistas.



The Most Beautiful Night in the World (2008) de Daisuke Tengan: *
Por causa da extensíssima duração (2 horas e 40 minutos), só muito recentemente ganhei coragem para ver este filme de Tengan (que já nos tinha oferecido uma agradável - Aiki - e uma menos boa - Alone in the Dark - experiência) e, apesar da bizarra narrativa, que, esperava eu, poder ser um sinónimo de uma inteligente e temerária experiência, ficamos aqui pela pura e simples brejeirice, mascarada de arrojo. Este é um filme que sofre dos mesmos pecados - mas aqui multiplicados -que já o último filme de Imamura padecia (também esse escrito por Tengan): muitas personagens, exagerada duração e um tratamento da sexualidade básico e infantil.



One Million Yen and the Nigamushi Woman (2008) de Yuki Tanada: ****
Depois de duas felizes, mas ainda imperfeitas, tentativas (Moon and Cherry e Ain't no Tomorrow's), temos realizadora! Eis que Yuki Tanada nos brinda com este filme convencionalmente independente mas que demonstra muita inteligência e muito tacto num certo amor e dedicação que dá aos personagens. Embora ache Yu Aoi um pouco sobrevalorizada, aqui ela realmente brilha e demonstra que a fama tem o seu proveito!



Alice in the Underworld (2009) de Mari Terashima: 0
E eu que pensava que já não podia haver mais criminosas adaptações, leituras, interpretações (venha o diabo e escolha!) do conto de Lewis Carol... Se a idiotice Tim Burtoniana era superficialmente gótica para agradar a teenagers que pensam que a Alice foi criada pela escritora de vampiros com problemas existenciais de pacotilha, então esta curta de Mari Terashima (uma das mais antigas realizadoras experimentais japonesas) é um vómito experimental, pretendendo-se grotesco, colorido para aquelas garotas que sonham que na era Victoriana é que era! Essa junção da moda underground com cinema indie foi, para mim, verdadeiramente penosa, porque, mais uma vez, nos damos conta de uma apropriação de universos díspares (afinal que mal fez a pequena Alice?), unidos somente por uma teimosia estética com laivos saudosistas que compacta o diferente no mesmo. De animações rudimentares, filmagens dinâmicas à anuncio de perfume, passando ainda por piscares de olho ao cinema mudo e legendas que mais parecem ter saído de um videojogo, Mari Terashima não se apercebe que aqui o grotesco tem mais que ver com o indiemente aceitável e não com o resto. E a pobre Alice, todos falam dela mas ninguém a compreende! Mais valia ter ficado pelo público da "literatura infantil"...



Cold Fish (2010) de Sion Sono: ***
Sion Sono prova mais uma vez aqui que é um realizador de excessos: em todos os seus mais recentes filmes parece-nos que se teima no exagero, na violência temática e gráfica dos argumentos e, principalmente, no carácter psicologicamente movediço das suas personagens (nada parece ser estável no mundo filmado de Sono). Se a sua linguagem cinemática é esta (o exagero pode ser tanto que inclusive roça a irrealidade: Love Exposure), muita desta sua carga excessiva ou funciona ou é frustrada com enormes proporções. Neste caso, poder-se-ia dizer que é um misto. De facto, Cold Fish tem momentos muito bem conseguidos, mas alguns tiques e algumas palermices (já se percebeu que Sono gosta de mulheres..) que o tornam uma experiência um tanto desequilibrada. Mesmo assim, e apesar do plot da família desunida e da "falta de comunicação" existente começar a ser uma constante repetida e um pouco enervante nos seus filmes (Noriko's Dinner Table, Love Exposure, Be Sure to Share etc.), parece-nos que a cena final consegue ser intensa e desconcertante o bastante - assim como a metáfora simples, mas eficaz do planetário - para este ser um satisfatório, e por vezes, bem forte, retrato de um serial-killer pela força tragicamente ocasional das circunstâncias.